NOVA YORK — Investidores estão ampliando a busca por ativos e estratégias menos dependentes da inteligência artificial, à medida que empresas ligadas ao setor ganham peso nos mercados acionário e de crédito dos Estados Unidos.
Mais de dois terços das companhias do índice Russell 1000, formado por grandes grupos americanos, têm alguma ligação com a IA, segundo pesquisa do Citigroup. A relação pode ser direta ou decorrer da incorporação da tecnologia aos modelos de negócios.
No mercado de títulos de grau de investimento, grandes empresas de tecnologia e companhias beneficiadas pelo aumento dos gastos com IA representam cerca de 16% do mercado americano, de acordo com dados do JPMorgan. O grupo se tornou o maior segmento desse mercado após uma forte onda de captação de empréstimos nos últimos anos.
Estratégias para reduzir a dependência
A concentração tem levado gestores a procurar fontes de retorno com menor correlação com ações e títulos ligados à IA. Vincent Mortier, diretor de investimentos da Amundi, afirmou que os clientes estão revendo como diversificar as carteiras. Para ele, uma revisão significativa das projeções de lucro poderia mudar o rumo do tema, embora isso não seja considerado iminente.
Ryan Marshall, chefe global de estratégias e soluções multiativos da BlackRock, disse que há demanda por carteiras com fontes de retorno independentes e não correlacionadas. Ele também apontou que a exposição à IA alcança fornecedores de energia, infraestrutura e componentes da cadeia de suprimentos, além de se relacionar com o crescimento econômico.
Segundo Marshall, esse cenário tem levado investidores a considerar ativos privados, hedge funds e outras áreas do mercado. Entre as estratégias citadas estão abordagens macro globais e operações long-short em ações, desde que os gestores consigam demonstrar que seus retornos não dependem dos riscos gerais dos mercados de dívida e ações.
Mortier afirmou que os hedge funds ganharam atratividade, mas ressaltou a diversidade desse universo e a dificuldade de identificar estratégias e gestores adequados. Ele também disse que os clientes avaliam cada vez mais mercados emergentes, incluindo ações e títulos em moedas locais na América Latina, na Índia e na China.
Outra possibilidade mencionada foi a alocação em ativos reais, como mineração e energias renováveis. Daniel Gamba, copresidente e diretor comercial da Franklin Templeton, afirmou que equipes da gestora analisam a IA como um fator de retorno, ao lado de valor, momentum e crescimento, para reduzir a exposição à volatilidade do setor.
Gamba disse que a Franklin mantém uma visão positiva sobre ações americanas, embora menos favorável do que no início do ano, e busca não concentrar os investimentos nas poucas empresas que destinam quase US$ 1 trilhão à infraestrutura de IA. A gestora também mantém uma visão positiva sobre o Japão e diversos mercados emergentes.
Na renda fixa, a Franklin analisa títulos com vencimentos mais curtos e evita assumir grandes riscos de juros na ponta longa, exceto quando os investidores buscam renda. Gamba recomendou cautela com a concentração de fatores e defendeu uma postura mais defensiva, sem considerar iminente uma grande onda de vendas.
Mortier comparou o momento ao ambiente anterior à crise financeira global, citando uma declaração do ex-chefe do Citigroup Chuck Prince feita em julho de 2007: “a música continua tocando e as pessoas continuam dançando”. Para o executivo, é difícil prever quando esse movimento terminará, o que reforça a necessidade de diversificação.


