A falta dos corpos de cinco etíopes executados na Arábia Saudita levou suas famílias a realizar cerimônias simbólicas de despedida. Os parentes também afirmam que não receberam os pertences pessoais nem as certidões de óbito dos condenados.
As execuções ocorreram em 23 de junho, no centro de detenção de Khamis Mushait, na província de Asir, no sul do país. Familiares dizem que não foram avisados previamente.
Kinfe Aregawi soube pelas redes sociais que seu filho Kibrom Kinfe Aregawi havia morrido. O jovem, de 25 anos, foi condenado por contrabando de maconha e executado depois de passar três anos preso. O pai afirma que não teve acesso a provas de que Kibrom tenha participado do crime.
“Ninguém me entregou sua certidão de óbito, seus pertences ou seu corpo”, disse Kinfe. Segundo ele, Kibrom foi condenado à morte após três meses de prisão.
Um funeral sem os restos mortais
Kibrom viajou pela primeira vez para a Arábia Saudita em 2020, sem visto válido, acompanhado do pai. Os dois foram detidos, permaneceram presos por 15 meses e depois deportados.
Durante a guerra civil na Etiópia, Kibrom decidiu voltar ao país. Ele atravessou o Mar Vermelho em uma embarcação lotada e seguiu a pé pelo Iêmen. Em 2023, foi detido novamente ao cruzar a fronteira saudita e acusado de tráfico de drogas.
Na tradição de muitos cristãos ortodoxos etíopes, o corpo é envolto em uma mortalha cerimonial e colocado em um caixão de madeira. Sem os restos mortais, a família de Kibrom não conseguiu realizar o enterro religioso formal.
Tsigabu Gebremariam foi executado no mesmo dia e na mesma prisão, também após condenação por contrabando de drogas. Aos 26 anos, era o mais velho de oito irmãos e vinha de uma área rural da região de Tigray Central.
Ele deixou a casa aos 18 anos para escapar da pobreza e da guerra civil, segundo o pai, Hagos Gebremeskel. Tsigabu passou três anos e meio na prisão e falou pela última vez com a família em fevereiro. Disse que voltaria em breve e se casaria.
Ao saber da execução por familiares que vivem na Arábia Saudita, os parentes organizaram um funeral simbólico e um serviço de oração em uma igreja local. A mãe, Letechristos Gebretsadik, cumpriu o período tradicional de luto de 40 dias e questiona por que o corpo não foi devolvido.
Execuções e repatriação
A Arábia Saudita executou 116 pessoas até 27 de julho, segundo a Human Rights Watch. Um relatório da Anistia Internacional publicado no ano passado aponta que 75% dos executados por crimes relacionados às drogas eram estrangeiros.
A Organização Saudita Europeia para os Direitos Humanos estima que o total de execuções no país tenha ultrapassado 2 mil desde a chegada do rei Salman bin Abdulaziz Al Saud ao trono, em 2015. A entidade calcula 356 execuções em 2025, o maior número anual registrado, e afirma que 42% dos executados eram estrangeiros.
Duaa Dhainy, pesquisadora da organização e consultora da Reprieve MENA, afirma que a retenção dos corpos prolonga a punição para os familiares. Ela também diz que redes criminosas podem explorar pessoas vulneráveis, incluindo etíopes convencidos a transportar objetos em troca de ajuda para cruzar a fronteira.
A legislação saudita permite que o corpo seja repatriado por meio da embaixada, mas Dhainy afirma não conhecer casos documentados de migrantes executados cujos restos tenham sido devolvidos às famílias. Segundo ela, campanhas anteriores de parentes de cidadãos turcos e jordanianos não tiveram sucesso.
Sigilo e medo no corredor da morte
A Arábia Saudita não divulga quantos detentos estão no corredor da morte. Ativistas estimam que possam ser centenas. Joey Shea, da Human Rights Watch, afirma que execuções secretas ou sem aviso prévio impedem que presos e familiares tenham tempo suficiente para se preparar.
Um detento cuja identidade e localização não podem ser reveladas disse ter sido preso em 2023 por contrabando de drogas. Ele afirmou que viu 15 companheiros de prisão serem executados neste ano e teme que seus pais não consigam ver seu corpo caso a sentença seja cumprida.
A relatora especial da ONU sobre liberdade de religião ou crença, Nazila Ghanea, classificou a suposta retenção dos corpos como “tortura e abuso”. O governo saudita não respondeu aos pedidos de comentário encaminhados aos ministérios do Interior e das Relações Exteriores e à embaixada em Londres. Também foi solicitado posicionamento à embaixada da Etiópia na Arábia Saudita.


