BERLIM — A escolha de Elif Eralp para comandar a capital alemã enfrenta resistência antes mesmo de uma eventual coalizão. Cotada para ser prefeita, ela não foi convidada para a principal cerimônia em memória dos três anos do ataque do Hamas, que matou 1.200 pessoas e sequestrou outras 251.
A ausência ocorreu no mesmo dia em que Friedrich Merz afirmou que votos de integrantes de seu partido favoráveis à AfD eram incompatíveis com os valores da legenda. O episódio colocou a memória do atentado no centro de uma disputa que envolve a esquerda, a direita e a formação do próximo governo de Berlim.
Pressão sobre Eralp
Filha de imigrantes turcos e principal nome do partido A Esquerda, Eralp conquistou a maior bancada do Parlamento de Berlim no mês passado. Na cidade-estado, o cargo de prefeita também corresponde ao de governadora. Sua indicação, porém, depende de uma coalizão com Verdes e SPD, que exigem uma posição clara da candidata nas negociações.
A legenda é acusada de antissemitismo por abrigar lideranças pró-Palestina e por condenar a atuação do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, em Gaza. Eralp já classificou essa atuação como genocídio, embora tenha evitado tratar do tema durante a campanha eleitoral. Nesta quarta-feira (7), lideranças dos Verdes e do SPD a acompanharam em outro evento, considerado um sinal positivo para sua candidatura.
Na Bebelplatz, praça associada à queima de livros promovida por Joseph Goebbels e pelos nazistas em 1933, o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, e o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor, criticaram diretamente A Esquerda. Prosor afirmou que o genocídio foi o ataque de 7 de Outubro, e não a atuação de Israel em Gaza.
Disputa também atinge a CDU
A CDU, partido de Merz, utiliza as acusações contra Eralp na disputa pelo poder em Berlim, mas enfrenta questionamentos por causa da aproximação de integrantes com a extrema direita. Na terça-feira (6), a AfD obteve sua primeira presidência parlamentar no estado de Saxônia-Anhalt com apoio velado de democratas-cristãos.
Merz declarou que quem vota na AfD fortalece os extremistas e perde credibilidade. Ao mesmo tempo, questionou se princípios considerados inegociáveis pela sociedade alemã seriam colocados em discussão para viabilizar uma coligação. Ele também havia afirmado que a existência de Israel é uma razão de Estado na Alemanha.
Perto do Portão de Brandemburgo, uma instalação com 500 lugares e fotos de vítimas lembrou o ataque. Ron Dekel, presidente da União dos Estudantes Judeus da Alemanha, disse que o antissemitismo é instrumentalizado tanto por A Esquerda quanto pela CDU.
Reações internacionais
Emmanuel Macron afirmou que combater o antissemitismo e o terrorismo é um compromisso da França. Ursula von der Leyen declarou que a União Europeia está ao lado das pessoas afetadas pelo ataque e que o bloco está disposto a ajudar a transformar o cessar-fogo em uma paz duradoura baseada na solução de dois Estados.
Andy Burnham prometeu combater o antissemitismo no Reino Unido, onde ocorreram recentemente ataques a sinagogas e locais ligados à comunidade judaica. Em Nova York, Zohran Mamdani classificou as ações do Hamas como crimes de guerra e disse que o sofrimento continuou em Gaza, onde 74 mil palestinos, incluindo mais de 21 mil crianças, foram mortos. Segundo ele, mais de 1.400 palestinos morreram mesmo após o chamado cessar-fogo.
No fim do dia, cerca de 100 pessoas participaram de uma manifestação pró-Palestina no Checkpoint Charlie. O local tinha mais policiais do que manifestantes.


