O documentário Pai e Pai acompanha Khader e Aviv, um casal gay que vive em Tel Aviv e tenta formar uma família. Khader é palestino e muçulmano; Aviv, israelense e judeu. Depois do casamento, os dois recorrem a uma agência americana para ter um filho biológico por meio de barriga de aluguel, ilegal em Israel, no Brasil e em quase todas as outras nações.
O plano envolve uma esteticista do Texas, que já tinha experiência nesse tipo de serviço. A tentativa, porém, é atravessada pelos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e pelas tensões entre Tel Aviv e Gaza. O filme acompanha os dilemas do casal e questiona o significado de colocar uma criança no mundo nessas circunstâncias.
Acompanhamento ao longo dos anos
A produção teve estreia mundial no Festival do Rio na última sexta-feira, 2. O diretor inglês Jake Witzenfeld já havia filmado Khader em Oriented, documentário de 2015 sobre as reflexões do palestino a respeito de sua identidade gay em Israel.
Witzenfeld contou que Khader o procurou em 2021 para falar sobre o desejo de ter um bebê. A partir daí, o diretor começou a desenvolver o projeto, que passou por períodos de maior e menor participação do personagem. Para ele, a relação mantida ao longo dos anos tornou Khader uma espécie de coautor do filme.
A mudança no contexto político após o início da guerra também alterou a disposição de Khader para ser filmado. Witzenfeld afirmou que o ambiente atual dificulta conversas com nuances sobre a questão palestina e israelense. “O clima é binário”, disse.
Casamento e regras da barriga de aluguel
O documentário também trata das contradições envolvendo os direitos LGBT+ em Israel e a ocupação de Gaza. Witzenfeld observa que o casal pode se casar e procurar uma agência de barriga de aluguel, mas encontra um obstáculo ligado à religião: uma cláusula exige que os dois pais tenham a mesma religião registrada em seus documentos.
O diretor afirmou que o filme expressa sua posição diante do conflito e que não pretende escolher um lado. Também disse considerar trágico que as duas comunidades continuem recorrendo à violência depois de quase um século de busca por coabitação.
A barriga de aluguel, inicialmente pensada como uma personagem central, teve participação reduzida porque a mulher envolvida preferiu manter pouco contato com a produção. Witzenfeld declarou acreditar que as pessoas devem ser livres para decidir sobre esse tipo de procedimento.


