A força das comédias para levar espectadores às salas aparece nos números recentes do cinema nacional. Entre 2010 e 2019, 56 filmes brasileiros ultrapassaram 1 milhão de espectadores, e 37 deles eram comédias. Desde então, apenas oito produções nacionais passaram desse patamar, sendo quatro do gênero.
O desempenho ajuda a explicar a chegada de duas sequências aos cinemas: Se Eu Fosse Você 3 e Um Tio Quase Perfeito 3. O primeiro retoma a história iniciada por um casal que troca de corpos e coloca em foco a filha e o genro dos personagens originais, interpretados por Cleo Pires e Rafael Infante. O segundo pertence a uma franquia de apelo familiar mais modesto.
O peso das franquias
A série Se Eu Fosse Você começou em 2006, sob direção de Daniel Filho, com Gloria Pires e Tony Ramos nos papéis principais. O filme acompanhava um marido e uma mulher em conflito que acordavam nos corpos um do outro e terminou aquele ano como a produção mais vista nos cinemas brasileiros.
A continuação chegou às salas em 2009 e registrou a melhor abertura de um filme brasileiro desde 1995, quando foram retomados incentivos públicos ao setor. Somados, os dois longas alcançaram 9,8 milhões de espectadores. Para Tony Ramos, havia cuidado para que a troca de corpos não transformasse os personagens em caricaturas. “Este não é só um filme para dar risada, mas para pensar e refletir sobre os papéis de gênero”, afirmou o ator.
As sequências também aparecem entre os melhores resultados recentes. O Auto da Compadecida 2 chegou a 4,3 milhões de espectadores, enquanto Minha Irmã e Eu alcançou 2,3 milhões e Os Farofeiros 2, 1,9 milhão.
A recuperação do público
O melhor resultado do período é de Minha Melhor Amiga, ainda em cartaz, com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli. O filme chegou a 5 milhões de espectadores e pode superar Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar, que registrou 5,7 milhões entre 2024 e 2025 caso mantenha o ritmo.
O longa com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli também se apoia em uma experiência das duas fora da ficção. As atrizes viralizaram nas redes sociais com relatos sobre problemas enfrentados em viagens internacionais, situação que se tornou o centro da trama.
A queda de público desde a pandemia atingiu o mercado global. Hollywood só conseguiu superar essa redução neste ano, impulsionada por superproduções com arrecadação bilionária. No Brasil, a recuperação ainda não alcançou o mesmo resultado, e as comédias continuam sendo o principal apoio do cinema nacional.
Uma fórmula conhecida
O gênero costuma trabalhar com dilemas cotidianos, situações de vergonha alheia e atuações físicas exageradas. Os Trapalhões foram referências desse modelo entre os anos 1970 e 1980, antes de alcançar novas gerações quando seus filmes chegaram à televisão.
Paulo Gustavo levou a fórmula à personagem dona Hermínia, inspirada em Déa Lúcia Amaral. Na década passada, Ingrid Guimarães se destacou em De Pernas pro Ar, Mônica Martelli levou aos cinemas Os Homens São de Marte… E É pra Lá que Eu Vou, e Fábio Porchat passou do YouTube e do Porta dos Fundos para a televisão e o cinema. Leandro Hassum ficou associado a personagens que enfrentam as dificuldades do homem comum, trabalho que também realiza na Netflix.
A aposta em novos capítulos reúne parte desses talentos e tenta preservar o espaço das comédias nas bilheterias. Ao mesmo tempo, a repetição de franquias expõe a dependência do setor em relação a fórmulas já testadas.


