Em outubro de 2006, a contaminação do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, matou milhões de peixes e afetou mais de 700 famílias que dependiam da pesca. Ao todo, 86 toneladas de animais mortos foram retiradas da água. Vinte anos depois, a reparação dos danos ainda tramita na Justiça, enquanto especialistas afirmam que o rio continua vulnerável à poluição.
O episódio ocorreu em um trecho entre Sapucaia do Sul e Nova Santa Rita. Os resíduos tóxicos chegaram ao Rio dos Sinos pelo Arroio Portão durante a piracema, período de reprodução dos peixes. A entrada de nutrientes favoreceu a proliferação de algas, que consumiram o oxigênio disponível e provocaram a morte dos animais por asfixia.
"Não se via água", relembra o balseiro Clausi Silva da Rosa ao descrever a superfície do rio tomada pelos peixes mortos.
Reparação ainda é discutida
Duas ações movidas pelo Ministério Público seguem em andamento. Uma delas resultou em uma condenação que soma mais de R$ 8,3 milhões por danos morais coletivos, mas a decisão ainda é alvo de recursos. A outra aguarda julgamento depois de ser encaminhada para sentença.
O Rio dos Sinos tem cerca de 190 quilômetros de extensão, nasce nas encostas de Caraá e deságua no Delta do Jacuí, em Canoas. No percurso, atravessa 30 municípios de uma região urbanizada e industrializada, onde vivem quase 1,5 milhão de pessoas.
Para Viviane Machado, presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, o desastre ocorreu quando a qualidade da água já apresentava problemas. Segundo ela, a condição do rio reduz sua capacidade de depurar descartes e amplia os efeitos de lançamentos irregulares.
O biólogo Uwe Schulz afirma que o caso também revelou limitações na resposta a emergências ambientais, tanto na coleta de amostras de água quanto na análise dos peixes atingidos. "É um marco que mostra que a gente não está preparado adequadamente para esse tipo de evento", comenta.
Pressão sobre o rio permanece
O esgoto sem tratamento continua sendo apontado como o principal problema por Danielle Martins, coordenadora do Laboratório de Vulnerabilidade, Riscos e Sociedade da Universidade Feevale. Para ela, melhores índices de tratamento são necessários para elevar a qualidade da água.
O monitoramento ambiental, porém, está mais rigoroso, segundo Schulz. A maior parte das indústrias opera dentro das exigências legais, e a FEPAM mantém acompanhamento constante. Ainda assim, acidentes e situações inesperadas continuam representando riscos.
A estiagem também favorece novos episódios de mortandade. Quando o nível do rio diminui, os poluentes ficam mais concentrados e a falta de oxigênio pode levar peixes a boiar em diferentes pontos. Esses eventos não alcançam as proporções de 2006, mas indicam que os problemas estruturais do Rio dos Sinos ainda não foram solucionados de forma definitiva.


