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Cultura

Em “Filho”, Thallys Braga narra conflito de classe, família e sexualidade

Livro de estreia do jornalista revisita a infância suburbana, a morte da mãe e o deslocamento após a ascensão social.

Em “Filho”, Thallys Braga narra conflito de classe, família e sexualidade

O jornalista Thallys Braga transforma a própria trajetória em matéria literária em “Filho”, seu primeiro livro, publicado pela Companhia das Letras. A obra percorre a infância marcada por dificuldades financeiras, a morte da mãe, a homofobia dentro da família e o desconforto de quem ascendeu socialmente sem se sentir pertencente aos novos círculos.

Braga manteve com os avós maternos um acordo para que eles não lessem o livro. O motivo é o conteúdo de passagens sobre a filha do casal, Luciana, que morreu aos 41 anos, e sobre situações vividas pelo autor durante a infância e a adolescência. Entre os episódios estão o dia do infarto da mãe, os problemas financeiros da família e experiências sexuais do próprio escritor.

Luciana trabalhava como empregada doméstica e babá na Barra da Tijuca e no Recreio. Para matricular o filho na escola, chegou a dormir na calçada durante algumas madrugadas. Também se endividou para que ele pudesse se preparar para o vestibular, em vez de trabalhar. O esforço agravou problemas físicos e mentais, em uma rotina marcada por dores crônicas, obesidade e dificuldades para fechar as contas.

A relação entre mãe e filho aparece no livro como uma combinação de violência e afeto. Luciana batia em Thallys com cinto, chinelo ou vara de goiabeira, mas repetia sete toques na parede do quarto dele antes de dormir, em um ritmo associado a “eu - te - amo”. O escritor também relata que ela queimou discos e pôsteres de divas pop, incluindo Lady Gaga, depois de descobrir que ele era gay aos 13 anos.

A família impôs um período de isolamento ao adolescente. Anos mais tarde, porém, os avós passaram a tratar sua orientação sexual com naturalidade e bom humor. O pai, Marcelo, era ausente e foi assassinado a tiros quando Thallys tinha dez anos.

A ascensão e o deslocamento

A trajetória descrita em “Filho” inclui a formação em uma universidade pública, o trabalho como repórter da revista Piauí, viagens ao exterior e a aproximação da zona sul carioca. O autor se apresenta como alguém que deixou para trás uma vida pobre em Inhoaíba, mas continua carregando o medo de perder o conforto material e voltar às origens.

Esse deslocamento também aparece na relação com o novo círculo social. Braga escreve sobre o incômodo diante de intelectuais que, segundo ele, fazem de tudo para participar de jantares na casa de Caetano Veloso enquanto ignoram acusações públicas de abusos psicológicos e morais feitas por uma empregada contra o cantor e a esposa.

No passado, o autor também não poupa familiares. Ele relata a violência de um tio, identificado apenas pela inicial S, e as consequências da repressão sofrida durante a infância. Ao mesmo tempo, reconhece que as pessoas envolvidas podem narrar os acontecimentos de outra forma.

Braga afirma que não teve a intenção de produzir um manifesto político. Sua referência inclui autores como Édouard Louis e Annie Ernaux, que lhe deram vocabulário para falar de desconfortos relacionados à classe social. A obra também assume a influência das fofocas ouvidas no portão de casa, na saída da igreja e na escola, entendidas por ele como uma forma oral e suburbana de contar histórias.

Com exceção de Luciana e Marcelo, os personagens não são nomeados. O escritor usa iniciais para evitar que essas pessoas sejam identificadas e procuradas nas redes sociais, embora possam se reconhecer nas situações narradas.

O pacto com os avós continua em vigor. A esposa do tio S foi o único parente de que Thallys teve notícia como leitor do livro. A reação dela foi negativa, mas o autor diz não se arrepender do que escreveu e diferencia o relato de um trauma da violência praticada contra uma criança.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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