SÃO PAULO — A escrita de Valê Ghiorzi parte de experiências pessoais, mas não se limita ao relato direto. Em seu primeiro livro, Veneno sonho, o escritor, compositor e ator aproxima poemas, relatos e fragmentos de diários de elementos ficcionais, numa tentativa de reproduzir a maneira como realidade e sonhos se misturam em sua experiência.
A obra foi compilada ao longo dos últimos três anos. Ghiorzi afirma que escreve como uma necessidade cotidiana e que o silêncio prolongado o faz perceber que deixou de dialogar consigo mesmo. A relação com a ficção também ganhou mais espaço no processo: para ele, o realismo bruto não é necessariamente a forma mais eficaz de tratar a verdade.
Escrita como confronto
Ghiorzi descreve sua produção como instável e em transformação. “Minha escrita é uma tentativa”, afirma. Em sua avaliação, as palavras não servem apenas para nomear as coisas, mas também para questionar os sentidos que receberam.
O autor conta que começou a escrever aos 11 anos, em um diário no qual registrava pedidos relacionados à solidão. Naquele período, imaginava estar sob a observação de uma divindade e escrevia em diálogo — muitas vezes, em tom de revolta — com essa figura. Hoje, diz não saber se há alguém o observando, mas continua escrevendo como parte de sua rotina.
Ele também relaciona seu impulso criativo à honestidade. Ao falar sobre o que o move, menciona a revolta diante do desespero político e defende a possibilidade de dizer as coisas sem permitir que o medo de ser mal interpretado impeça a expressão. Para Ghiorzi, uma fala honesta pode produzir alívio.
Lançamento no Bom Retiro
O lançamento de Veneno sonho será na terça-feira, 13 de outubro, às 19h, no Bar Carmen, na rua Silva Pinto, 429, no Bom Retiro. O encontro terá leituras de Valê Ghiorzi, Nuno Lima, Maria Vitória Royer e Nathalia Garcia.
No livro, o autor reúne experiências que considera violentas, pesadelos, sonhos, paixões e ficção. Ele afirma que expor esse material é desconcertante, mas considera necessário colocar no mundo as palavras que o atravessam.
Ghiorzi nasceu na França, chegou ao Brasil com um ano e voltou ao país europeu em 2023, onde morou por três anos para fazer um mestrado. Ele diz amar os dois países, mas afirma que o português brasileiro é a língua que mais ocupa seus sonhos e que se considera brasileiro.


