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Cultura

Autoficção expõe vidas privadas e amplia os limites da literatura

Autores como Emmanuel Carrère, Annie Ernaux e Marcelo Rubens Paiva transformam experiências pessoais em matéria literária.

Autoficção expõe vidas privadas e amplia os limites da literatura
Foto: Stefania D’Alessandro/Getty Images

A autoficção transforma experiências pessoais em matéria literária sem se comprometer inteiramente com a promessa de verdade da autobiografia tradicional. O gênero permite que escritores abordem pais, filhos, amantes, segredos e conflitos familiares usando a realidade com liberdade criativa.

O termo foi criado em 1977 pelo escritor e crítico francês Serge Doubrovsky (1928-2017). Desde então, a autoficção passou a reunir obras que variam entre o relato íntimo e a construção literária, com autores dispostos a tratar da própria vida sem recorrer necessariamente a nomes fictícios.

Emmanuel Carrère e a família

Entre os nomes associados ao gênero está o francês Emmanuel Carrère, 68 anos, filho da historiadora russa Hélène Carrère d’Encausse. Em passagem por São Paulo, ele apresentou Colcoz, livro publicado pela Alfaguara que reconstrói quatro gerações de sua família, da emigração russa à guerra na Ucrânia.

A narrativa parte da morte da mãe, em 2023, aos 94 anos, e combina relações entre pessoas da mesma geração com os vínculos entre pais e filhos. Carrère prefere definir seu trabalho como um romance não ficcional, no qual o eu funciona como autoridade narrativa, mas não como protagonista absoluto. “Não coloco subtítulos nos meus livros”, afirmou.

O autor também escreve ficção e romance-reportagem, com obras inspiradas em figuras reais, como O Adversário e Limonov. A relação entre vida privada e literatura, porém, já lhe trouxe consequências. Em Um Romance Russo, de 2007, ele revelou a colaboração do avô materno com os nazistas e expôs um ciúme possessivo pela companheira da época. “No caso desse livro, eu me arrependo. Cruzei uma linha que não se deve cruzar — machuquei tanto minha mãe quanto minha companheira da época”, disse.

Uma tradição internacional

A França reúne outros autores de destaque na autoficção. Annie Ernaux, 86 anos, recebeu o Nobel de Literatura em 2022 e construiu uma obra sobre classe, desejo e feminismo. Em O Acontecimento, narrou o aborto realizado quando era estudante, experiência revelada quase quatro décadas depois e adaptada para o cinema em 2021.

Édouard Louis, 33, tornou-se conhecido por relatos sobre pobreza e homofobia. Seu livro de estreia, O Fim de Éddy, foi publicado em 2014. Em suas obras, assim como nas de Ernaux, a experiência individual aparece ligada a questões mais amplas da sociedade.

No Brasil, o sociólogo paulista José Henrique Bortoluci, 42, escreveu sobre o pai caminhoneiro em O que É Meu. O paulistano Marcelo Rubens Paiva, 67, trata da própria família e de acontecimentos que vão da ditadura às tragédias pessoais. Em Ainda Estou Aqui, relatou o assassinato de seu pai, Rubens Paiva, por agentes do regime militar em 1971. A história foi levada ao cinema e trouxe para o Brasil o primeiro Oscar do país.

A autoficção também aparece na obra do norueguês Karl Ove Knausgård, 57, autor da série Minha Luta, dedicada ao cotidiano doméstico e aos dramas familiares. A exposição provocou problemas e processos movidos por parentes. A canadense Rachel Cusk, 59, abordou casamento, divórcio e maternidade na trilogia Esboço. Em Life of M, ainda sem tradução no Brasil, a autora criou uma protagonista muito parecida com a atriz Natalie Portman.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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