SÃO PAULO — Tom Zé completa 90 anos neste domingo com uma agenda que inclui exposição, biografia, shows e dois lançamentos musicais. O cantor recebeu o repórter em seu apartamento, no bairro de Perdizes, onde vive há mais de 50 anos.
Entre os projetos estão uma exposição na Caixa Cultural São Paulo, a biografia Um Vira-Lata na Via Láctea, escrita por Christopher Dunn, e apresentações no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no Sesc Pompeia e no Festival Saravá, em Florianópolis. Também estão previstos um disco da série Relicário, do Sesc, com a gravação de um show realizado há 30 anos, e um álbum de inéditas, anunciado pela faixa Futuro Fruto.
Política, censura e tropicalismo
A política ocupa espaço secundário na rotina do músico. Ele relembrou ter sido preso duas vezes durante o período militar: uma pelo Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, e outra pela polícia comum. Na segunda ocasião, Neusa Martins, sua mulher desde 1970, passou dias sem saber onde ele estava. O motivo foi uma ponta de cigarro de maconha encontrada em uma frasqueira, depois de seu apartamento ser revistado.
Tom Zé trabalhou em Salvador, no começo dos anos 1960, como diretor de música do Centro Popular de Cultura, financiado pelo Partido Comunista, embora diga que nunca tenha sido comunista. Em suas canções, abordou a vida urbana, a poluição, a desigualdade e o moralismo. Todos os Olhos, de 1973, reúne músicas em que ruas e edifícios de São Paulo aparecem com características humanas.
O músico participou ativamente do tropicalismo. Esteve na capa de Tropicália ou Panis et Circencis, de 1968, e compôs obras gravadas por Gal Costa, Rita Lee e Os Mutantes. Depois do exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, porém, ficou isolado. Hoje, afirma considerar superado o período de esquecimento.
Instrumentos e formação
Antes de ser lembrado por David Byrne, nos anos 1980, Tom Zé passou por dificuldades, tocando para universitários no interior. De 1969 a 1993, não se apresentou no Rio de Janeiro. Seus discos Estudando o Samba, de 1976, e Nave Maria, de 1984, foram posteriormente valorizados no Brasil.
A experimentação aparece também nos instrumentos que criou. A partir de uma enceradeira quebrada, desenvolveu o enceroscópio. Fez ainda o buzinório, com buzinas, e o hertzé, que reproduzia ruídos urbanos por meio de um gravador e teclas.
Nascido em 1936, em Irará, na Bahia, Tom Zé estudou na Universidade Federal da Bahia a partir de 1964. Teve aulas com Hans-Joachim Koellreutter, que apresentou a ele conceitos da música de vanguarda europeia, como a dodecafonia. Em 1965, participou em São Paulo do espetáculo Arena Canta Bahia com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1968, mudou-se de forma definitiva para a capital paulista.
Ao resumir sua trajetória, o músico se define como “um dodecafonista sertanejo”. A frase combina sua formação erudita, as referências da música popular e a experiência de infância no interior baiano.


