A exportação de ouro venezuelano para os Estados Unidos começou antes que empresas e auditores independentes visitassem as minas de origem. O metal saiu do país em meio a dúvidas sobre pagamentos a facções, corrupção e danos ambientais, enquanto o governo de Donald Trump buscava controlar os recursos minerais da Venezuela.
No início de março, dez barras de ouro venezuelano foram levadas à Casa Branca durante uma reunião entre Trump e Doug Burgum, secretário do Interior. Funcionários afirmaram que o metal foi colocado na Sala Roosevelt, diante do Salão Oval, onde assessores tiraram fotos e fizeram brincadeiras sobre ficar com as barras.
A mudança ocorreu depois da intervenção militar que retirou Nicolás Maduro do poder. Antes, Trump havia colocado o ouro venezuelano em uma lista negra e afirmado que a atividade destruía o meio ambiente, envenenava pessoas e financiava criminosos e militares corruptos. Depois da captura de Maduro, o governo passou a permitir a importação do metal por comerciantes.
Acordo com a estatal venezuelana
A Trafigura apresentou à Casa Branca um plano para comercializar o ouro e, dias após a prisão de Maduro, seus executivos defenderam que os Estados Unidos assumissem o controle de uma indústria considerada sem lei. A empresa havia recebido autorização para vender petróleo venezuelano e disse ter permissão confidencial ampla para contornar sanções.
No início de março, Burgum foi a Caracas para promover acordos. Delcy Rodríguez, instalada como substituta de Maduro, resistia à ideia de depositar as receitas em uma conta controlada pelo Tesouro americano, mas acabou autorizando a parceria entre a Trafigura e a Minerven, produtora estatal de ouro.
O contrato, assinado em 5 de março, deu à Trafigura o direito de comprar e exportar, por um ano, ouro de algumas minas subterrâneas industriais. Poucas horas depois, a empresa enviou o primeiro carregamento aos Estados Unidos em um avião fretado. Burgum afirmou mais tarde: “No fim dos dois dias, conseguimos trazer para casa US$ 100 milhões (R$ 520 milhões) em ouro —fisicamente, o ouro”.
As compras regulares podem chegar a 400 kg por mês. O metal, porém, começou a ser exportado antes da certificação de sua origem. A Trafigura contratou auditor e consultor de risco depois de adquirir milhões de dólares em ouro não certificado.
Mineração sob influência de facções
Em El Callao, centro da mineração venezuelana, donos de minas, líderes de brigadas e funcionários da Minerven relataram que operações privadas entregam parte da produção ao Tren de Guayana em troca de proteção. Em algumas áreas, 20% do ouro extraído por uma brigada é destinado à facção. Outra parcela é entregue à Minerven, que derrete esse material junto com o ouro vendido à Trafigura.
A consequência é que barras exportadas no principal acordo do governo Trump podem conter ouro ligado ao Tren de Guayana. David Soud, consultor contratado pela Trafigura, afirmou que a exploração criminosa está profundamente enraizada no setor e que é extremamente difícil construir uma cadeia de fornecimento livre dessa influência.
A Heeney Capital também entrou no setor ao se associar à Mercuria. As empresas estimaram que seus acordos poderiam gerar US$ 2,2 bilhões (R$ 11,4 bilhões) em exportações minerais por ano. A parceria se voltou para El Chocó, uma mina a céu aberto administrada pelo Estado venezuelano e apontada como área de maior risco de corrupção e danos ambientais.
Julia Yansura, diretora de programa da FACT Coalition, afirmou que cerca de 90% do ouro produzido na Venezuela é obtido por meios criminosos. Para ela, buscar a parcela supostamente regular seria como procurar uma agulha em um palheiro.
Metal permanece armazenado
Seis meses depois do início do transporte para os Estados Unidos, a Trafigura ainda não havia revendido o ouro. O metal permanecia armazenado, e os compradores precisariam comprovar que ele não tinha vínculo com atividades criminosas.
A Casa Branca declarou que a mineração venezuelana havia sido usada para sustentar facções perigosas e agentes nocivos. Taylor Rogers, porta-voz do governo, afirmou que os Estados Unidos estavam ajudando a resolver o problema e que empresas ocidentais melhorariam e legitimariam o setor.
O governo Trump manteve a estratégia de afrouxar sanções e atrair investimentos, enquanto democratas contestavam o acordo e prometiam fiscalizá-lo.


