BRASÍLIA — O Projeto Caldeira, empreendimento de terras raras da australiana Meteoric Resources no sul de Minas Gerais, iniciou testes para possível fornecimento à Ucore Rare Metals, empresa canadense que pretende separar os minerais na Louisiana, nos Estados Unidos. O material poderá seguir depois para a Vulcan Elements, fabricante americana de ímãs que recebeu investimento de um fundo associado a Donald Trump Jr.
A Meteoric mantém uma unidade piloto em operação e informou que, em 11 de junho deste ano, havia processado 43 toneladas de minério de Caldeira e produzido mais de 200 quilos de concentrado de terras raras. Parte desse material foi enviada a potenciais compradores para testes de qualidade, entre eles a Ucore.
A companhia australiana afirmou ter extraído, em média, 71% dos elementos presentes no minério processado que são usados na fabricação de ímãs. A exploração comercial ainda não começou. Em maio de 2026, a Meteoric pediu a licença de instalação necessária para avançar na implantação da operação.
Acordos e capacidade prevista
Meteoric e Ucore assinaram um memorando de entendimentos em agosto de 2024. Pelo plano, a Ucore receberá a mistura de terras raras, separará seus elementos em uma unidade na Louisiana e os transformará em óxidos para uso industrial.
O Caldeira deve fornecer pelo menos 3.000 toneladas anuais. A Meteoric estima uma operação com duração superior a 20 anos e produção média de 12.500 toneladas anuais de óxidos de terras raras. Desse volume, 3.000 toneladas seriam destinadas à Ucore.
Em março de 2026, a Vulcan Elements assinou um memorando com a Ucore para uma fase de testes com amostras. Os testes estão em andamento, com previsão de início do fornecimento comercial pela Ucore a partir de 2027.
A conexão com Trump Jr. passa pela 1789 Capital, fundo do qual ele é sócio e que investiu na Vulcan em agosto de 2025. A empresa fabrica ímãs usados em drones, satélites, equipamentos militares, semicondutores e carros elétricos.
Estrutura do projeto em Minas
A Meteoric afirma que o Caldeira reúne 78 títulos minerários e de pesquisa em uma área de 19,2 mil hectares, equivalente a cerca de 192 quilômetros quadrados. A estimativa da empresa é investigar 1,6 bilhão de toneladas de material.
O projeto está distribuído pelos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas. Em dezembro de 2025, o Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais concedeu à Meteoric uma licença prévia válida por cinco anos. A implantação efetiva da mina ainda depende da licença de instalação.
A conexão planejada forma uma cadeia que começa com a extração e a produção de carbonato misto em Minas Gerais, passa pela separação dos elementos na Louisiana e termina com a fabricação de ímãs pela Vulcan na Carolina do Norte.
Em 2025, o Pentágono comunicou um compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões (R$ 3,22 bilhões) à Vulcan para ampliar a produção. Trump Jr., a 1789 Capital e o Pentágono negaram, na ocasião, que a relação política tivesse influenciado a decisão.
Regulação brasileira
O acordo entre Meteoric e Ucore foi firmado antes da sanção, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do projeto de lei nº 2.780/2024, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras.
A legislação prevê análise federal de acordos internacionais de fornecimento capazes de afetar a segurança econômica ou geopolítica do país. A aplicação da regra a um eventual contrato definitivo entre Meteoric e Ucore poderá ser questionada pelo governo.
Meteoric, Ucore e Vulcan não responderam aos pedidos de posicionamento enviados por e-mail. A 1789 Capital e a assessoria de Donald Trump Jr. não divulgam contato institucional ou para a imprensa. Flávio Bolsonaro também não se posicionou sobre o assunto até a publicação do texto.


