IRAQUE — A retirada das forças dos Estados Unidos do Iraque deve ser concluída até esta quarta-feira (30), encerrando a permanência das últimas tropas americanas no país. A saída é acompanhada por alertas de autoridades iraquianas sobre a possibilidade de reorganização do Estado Islâmico e de ampliação da influência de grupos apoiados pelo Irã.
A decisão foi acordada em 2024, durante o governo de Joe Biden, e vem sendo executada pela administração de Donald Trump enquanto os dois países permanecem envolvidos em uma guerra. Especialistas iraquianos em segurança avaliam que a retirada pode reduzir a capacidade de contenção das milícias alinhadas a Teerã e criar espaço para a atuação de outros adversários dos Estados Unidos.
Alertas sobre segurança
Abdulrahman al-Zobaie, líder tribal sunita em Fallujah, afirmou que os iraquianos defendem a soberania do país, mas ainda não consideram adequado assumir sozinhos a segurança nacional. Para ele, a saída da coalizão liderada por Washington pode produzir um vazio temido pela população.
A preocupação também aparece entre autoridades de segurança do governo federal e da região curda semiautônoma no norte. Segundo elas, o Estado Islâmico mantém células adormecidas, apesar da derrota de seu califado autoproclamado há quase uma década.
O comandante curdo Sirwan Barzani disse ter observado movimentações dessas células nas últimas semanas. Ele relacionou o aumento do moral dos combatentes à divulgação da retirada da coalizão internacional. As forças iraquianas também afirmaram ter identificado uma suposta célula que preparava atentados suicidas para coincidir com a saída americana.
Na cidade petrolífera de Kirkuk, o coronel Khalid al-Bayati afirmou que o grupo tenta demonstrar que ainda tem capacidade para realizar ataques. No auge de sua expansão, o Estado Islâmico controlou um terço do Iraque e matou milhares de pessoas.
Influência iraniana
Jasim al-Bahadli, analista iraquiano especializado em grupos armados xiitas alinhados ao Irã, avaliou que Teerã será beneficiado pela retirada. A presença americana funcionava como contrapeso à influência iraniana, e sua eliminação pode ampliar a margem de ação dos aliados do país e sua participação nas decisões políticas e de segurança do Iraque.
Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica iraquiana, organização que reúne facções apoiadas pelo regime iraniano, classificou a retirada como uma “vitória histórica” para os grupos que chama de resistência. Ele afirmou que a data de 30 de setembro marcará o encerramento de uma etapa da história iraquiana e a derrota do projeto americano.
O Irã também apresenta a saída como uma conquista de seu chamado eixo de resistência. Amir Hayat Moqaddam, vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, disse na segunda-feira (28) que a segurança duradoura prevalecerá no Iraque depois da saída das tropas americanas do país e da região.
Washington acusa milícias apoiadas por Teerã de participar do conflito mais amplo no Oriente Médio e de lançar ataques contra países vizinhos sob ordens iranianas. O episódio mais recente mencionado foi um ataque contra um importante oleoduto saudita neste mês. Bagdá afirma que tenta conter a influência desses grupos.
Histórico da presença americana
As forças dos Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 para derrubar Saddam Hussein. Depois, ocuparam o país, instalaram um governo liderado por xiitas e conduziram uma campanha de contrainsurgência. A retirada ocorreu no fim de 2011, mas as tropas retornaram menos de três anos depois para apoiar a derrota do Estado Islâmico, em uma guerra travada entre 2014 e 2017.
Durante mais de duas décadas de guerra, 4.500 americanos morreram no Iraque. Na guerra deste ano contra o Irã, 7 dos 18 militares americanos contabilizados entre os mortos estavam no país. O caso mais recente foi o de um sargento do Exército morto durante a detonação controlada de um drone em uma base próxima a Erbil, em julho.
O Iraque manteve, nos últimos anos, alianças políticas e militares estreitas tanto com os Estados Unidos quanto com o Irã. O território foi usado em confrontos indiretos entre os dois países. Em 2020, as forças americanas mataram Qassim Suleimani em um ataque ao Aeroporto de Bagdá, enquanto aliados de Teerã realizaram ataques repetidos contra bases americanas e provocaram represálias em algumas ocasiões.


