Márcio Chaer era conhecido pela coragem, pela defesa do direito universal de defesa e por um modo direto de tratar colegas, autoridades e fontes. Para um jornalista que trabalhou com ele por dez anos, a convivência foi marcada por provocações, ensinamentos e uma busca constante por notícias.
O autor do relato conheceu Márcio em 2011, aos 22 anos. Antes de aprender seu nome, recebeu a tarefa de entrevistar um advogado enquanto Márcio ouvia a conversa de uma mesa próxima. Depois, recebeu por e-mail uma agenda com os telefones de autoridades e a orientação de que uma fonte só teria valor se fosse acionada. “Uma boa agenda é fundamental, não existe jornalismo sem fonte”, dizia Márcio.
A recomendação era ligar ao menos uma vez por semana para alguém da agenda, mesmo que fosse preciso inventar um assunto. A rotina também incluía atender o telefone da redação, porque do outro lado poderia estar uma informação relevante. O autor afirma que não dava uma notícia exclusiva por dia, mas acabou sendo correspondente em Brasília e chefe de redação antes de deixar o trabalho em 2020.
Humor, cobrança e confiança
Márcio costumava esconder elogios em meio a críticas. Quando o autor produzia um texto considerado bom, perguntava quem o havia escrito. Em outra ocasião, após uma entrevista com um juiz de São Paulo alcançar audiência recorde, recomendou que ele se preparasse para o futuro, pois dificilmente teria a mesma sorte novamente.
As provocações também eram públicas. Quando o autor respondeu a uma brincadeira sobre o fim da União Soviética, Márcio passou a chamá-lo de Piotr e, depois, de Pedro Canalha. Só interrompeu a prática após usar o apelido diante do ministro Celso de Mello e receber uma reprimenda. Em outra situação, fez uma piada sobre um carregador de celular e uma suposta cama compartilhada durante uma viagem a Brasília.
Apesar do humor áspero, Márcio confiava responsabilidades ao jornalista. Em 2012, depois que ele conseguiu uma entrevista com o ministro Moreira Alves, Márcio ajudou na preparação, mas recusou-se a acompanhá-lo: “Claro que não, esse momento é seu.” O mesmo ocorreu em outras entrevistas com figuras consideradas difíceis.
Quando o ministro Teori Zavascki morreu em um acidente aéreo, Márcio convenceu o autor a escrever um perfil sobre o ministro. O jornalista estava abalado, mas aceitou o trabalho após ouvir que provavelmente era quem mais conversava com Teori no país.
Defesa do jornalismo e legado
Márcio defendia que o direito de defesa era sagrado e universal. Também criticava campanhas morais apresentadas como combate à corrupção e jornalistas que aceitavam sem questionamento discursos de autoridades que se apresentavam como representantes da virtude.
Seu método era procurar a notícia fora dos discursos oficiais e manter contato com autoridades, profissionais e fontes. Ele também criticava jornalistas que passavam tempo conversando entre si em eventos. No velório, cercado por amigos, jornalistas e autoridades, o autor imaginou que Márcio reclamaria de ver tantos profissionais reunidos sem circular em busca de notícias.
A relação entre os dois se tornou difícil no fim da convivência profissional. Ainda assim, o autor atribui a Márcio parte importante de sua formação e reconhece que muitos jornalistas que trabalharam com ele seguiram caminhos próprios depois de passar por sua equipe. Márcio, afirma, deixou uma marca feita de frases provocadoras, cobrança, generosidade e compromisso com a notícia.

