A publicação de Música de Mortos Suaves recupera 14 contos que Ricardo Guilherme Dicke considerava destruídos por cupins. As narrativas foram localizadas pelo pesquisador Rodrigo Simon de Moraes em meio ao arquivo pessoal do escritor e apresentam características que se tornariam recorrentes em sua literatura, como a experimentação formal, o tom onírico e a presença da morte.
Moraes encontrou os textos durante sua pesquisa de doutorado em teoria e história da literatura na Unicamp, defendida em 2021. O material estava entre 50 quilos de papéis deixados por Dicke. O pesquisador chegou ao arquivo depois de conversar com Ariadne, filha do escritor, inicialmente interessado nas pinturas do pai. Três dias depois, desembarcou em Cuiabá para examinar os documentos.
Entre os papéis havia um caderno de espiral, de capa ocre, com textos manuscritos, além de versões datilografadas. Como a caligrafia era difícil de decifrar e o caderno estava quase se desfazendo, Moraes passou a comparar o conteúdo com os textos datilografados. A existência dessas versões indicava que Dicke pretendia publicar as narrativas.
Duas histórias do caderno ficaram fora do volume porque já haviam sido publicadas. “Tríptico de Frei Dámaso”, sobre um triângulo amoroso entre dois frades e uma fiel, aparece de forma modificada no romance Caieira. Moraes decidiu incluí-lo na coletânea por considerar que sua forma original permanecia inédita.
Os primeiros sinais de uma obra singular
Os contos provavelmente foram escritos antes de 1967, quando Dicke publicou seu primeiro livro, Deus de Caim. As narrativas reúnem personagens solitários, mortos e imagens da natureza. Em “Vigília”, a chuva é descrita como um desespero e o cemitério aparece como uma floresta de cruzes.
Em “Entardecer, Domingo”, o narrador registra que eram “cinco e meia” do entardecer e emprega a expressão “sem embargo”, construção associada ao espanhol. O pesquisador relaciona esse traço à convivência de Dicke com a uruguaia Adélia Boskov Todorov, com quem se casou em 1961. Em cartas dirigidas a ela, o escritor misturava português e espanhol.
A mesma narrativa apresenta um protagonista consciente de sua condição latino-americana. Para Moraes, os contos mostram que Dicke conseguia levar seu estilo ornamental e experimental também para textos curtos, além dos romances extensos pelos quais ficou conhecido.
Distância e dificuldade de publicação
Nascido na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, Dicke passou a viver em Cuiabá aos seis anos. Durante os anos 1960, morou no Rio de Janeiro com a mulher e tentou ingressar no circuito artístico dedicando-se exclusivamente à escrita. Em 1967, recebeu menção honrosa no Prêmio Walmap por Deus de Caim, cujo júri reunia Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto.
No período carioca, escreveu Caieira, publicado em 1978, e Madona dos Páramos, lançado em 1981. As obras chegaram ao público depois que o autor retornou a Cuiabá, nos anos 1970. Caieira recebeu o Prêmio Remington de Prosa; Madona dos Páramos, o Prêmio Ficção de Brasília, da Fundação Cultural do Distrito Federal.
A distância das editoras e o tamanho dos manuscritos dificultavam a circulação dos livros. Madona dos Páramos, por exemplo, tem 518 páginas e acompanha 12 foragidos pelo sertão do Centro-Oeste brasileiro. O romance, comparado algumas vezes a Grande Sertão: Veredas, de 1956, combina descrições extensas e digressões com um vocabulário conhecido usado de modo particular.
Em 1980, o editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, recusou Orcus, romance que nunca foi lançado. Em carta, avaliou que a obra poderia ser reduzida, mas observou que o autor desejava mantê-la extensa. Em 2004, Patrizia di Malta também relatou dificuldades para enviar os livros longos de Dicke a editoras italianas.
Um autor ainda pouco reconhecido
Hilda Hilst definiu a linguagem de Dicke como dotada de uma “oleosidade fascinante” e também a chamou de “impressionantemente prolixo”. A extensão dos romances, a localização do Mato Grosso distante dos centros culturais de Rio e São Paulo e a dificuldade de contato com as editoras contribuíram para limitar a circulação de sua obra.
“Música de Mortos Suaves” integra esforços recentes de recuperação desse legado. Dois anos antes da publicação da coletânea, Madona dos Páramos havia sido relançado. Dicke morreu em 2008 sem acompanhar uma nova edição do romance, que considerava seu melhor trabalho. Está enterrado no Cemitério da Piedade, em Cuiabá.
O próprio escritor acreditava que os cupins haviam destruído os contos durante a temporada de chuvas do Mato Grosso. Em entrevista de 1994, lamentou a perda. Moraes registra no prefácio que Dicke pode ter morrido sem saber que as narrativas haviam sobrevivido.


