Morto nesta terça-feira, 22 de setembro, aos 95 anos, Zuenir Ventura deixou uma obra marcada pela combinação entre reportagem, memória, investigação e análise social. Três livros ajudam a compreender sua trajetória como jornalista e intérprete do Brasil: 1968: O Ano que Não Terminou, Cidade Partida e Chico Mendes: Crime e Castigo.
Publicado em 1989, 1968: O Ano que Não Terminou reconstrói um dos períodos mais turbulentos da história brasileira. Zuenir acompanha a mobilização estudantil, a repressão política e o ambiente que levou ao Ato Institucional nº 5, o AI-5, marco do endurecimento da ditadura militar. A obra reúne pesquisa histórica, testemunhos e lembranças pessoais. Vendeu mais de 300 000 exemplares e inspirou a minissérie Anos Rebeldes (1992), da Globo.
Violência e desigualdade
Lançado em 1994, Cidade Partida examina a violência e a desigualdade no Rio de Janeiro. O livro nasceu do acompanhamento feito pelo jornalista, durante meses, do cotidiano de uma comunidade após a chacina de Vigário Geral, em 1993. No mesmo período, ele registrou a articulação que resultaria no movimento Viva Rio.
O trabalho apresenta uma cidade dividida por contrastes sociais, econômicos e geográficos. Em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem, reforçando a presença da investigação jornalística na construção de uma narrativa de alcance social.
O caso Chico Mendes
Em Chico Mendes: Crime e Castigo, de 2003, Zuenir retorna ao Acre quinze anos depois do assassinato do líder seringueiro, ocorrido em 1988. O repórter revisita personagens, circunstâncias e consequências do crime para reconstituir o episódio e as transformações provocadas por ele.
A seleção evidencia um método recorrente do autor: usar um acontecimento concreto como ponto de partida para investigar estruturas sociais, políticas e humanas. Em conjunto, os livros formam um percurso pela memória política do país, pelas fraturas sociais de uma metrópole e pela permanência de um crime na história brasileira. Zuenir Ventura também foi uma figura ativa na defesa dos direitos humanos.


