BRASÍLIA — A Bravo Grafeno, empresa de capacetes cujo dono é o senador Flávio Bolsonaro (PL), está registrada na sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, no Distrito Federal. O mesmo endereço é compartilhado por ao menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, personagem central das investigações sobre fraudes contra aposentados e pensionistas.
Os registros também apontam que as empresas utilizam serviços da Voga Serviços Contábeis, pertencente a Alexandre Caetano dos Reis. Ele foi sócio de Antunes e é responsável pela contabilidade do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Reis está preso desde dezembro de 2025.
As investigações sobre o esquema no Instituto Nacional do Seguro Social apontam que as fraudes lesaram mais de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024. O prejuízo aos cofres públicos é estimado em R$ 2 bilhões. Antunes está preso preventivamente desde setembro de 2025, no Presídio da Papuda, em Brasília.
Endereço e contabilidade
A sala 2601 fica no 26º andar do edifício, na QS 1, Rua 212, lotes 19, 21 e 23. A Voga ocupa quatro salas no local, incluindo a 2603, onde funciona sua recepção.
O advogado Thalles Setúbal confirmou que a empresa de contabilidade presta serviços à Bravo Grafeno. Ele negou, porém, que a sala 2601 pertença à Voga, embora funcionários tenham indicado que o espaço também era utilizado pela empresa. Questionado sobre a relação da contabilidade com Flávio Bolsonaro e com as investigações da Polícia Federal, Setúbal declarou: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”.
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. A empresa vende dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras nas cores branca e preta por R$ 54. O domínio do site foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, atua na divulgação da marca. Em um vídeo publicado no site da empresa, afirmou: “Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”. Ele lançou o produto em 11 de março de 2025, durante o Salão das Motopeças, em São Paulo.
Carlos Bolsonaro também aparece entre os sócios da fabricante. O quadro societário inclui ainda Pedro Luiz Dias Leite, Paulo Giordano Bernardi e Fernando Nascimento Pessoa. Os dois últimos, assim como Carlos Bolsonaro, não responderam às tentativas de contato.
Relações com investigados
Além de ter sido sócio de Antunes em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, Alexandre Caetano dos Reis aparece como contador de empresas vinculadas ao Careca do INSS. A investigação da Polícia Federal indica que ele tinha acesso a planilhas internas, documentos estratégicos e operações financeiras do grupo.
Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, é administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Em entrevista concedida em 30 junho de 2022, ela disse que chegou ao escritório por indicação de Willer Tomaz, amigo do senador e advogado que também foi alvo da Operação Sem Desconto. Tomaz tem procuração para defender Alexandre Reis na investigação sobre os desvios no INSS.
A rede empresarial de Antunes inclui companhias de consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e serviços de call center. Algumas foram baixadas depois do início das investigações. Oito empresas foram abertas em 5 de outubro de 2023. Outra, a RPLD Construtora e Incorporadora, foi registrada um mês depois da Bravo Grafeno.
Entre as empresas instaladas na sala 2601 está a Prospect Consultoria Empresarial. Segundo o relatório final da CPMI, a companhia recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas. Desse total, R$ 115,9 milhões vieram da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA.
As investigações apontam que Antunes atuava junto a entidades autorizadas a descontar mensalidades diretamente dos benefícios do INSS. Os valores passavam por diferentes CNPJs e eram destinados, entre outras finalidades investigadas, à aquisição de patrimônio e a pagamentos para pessoas ligadas ao grupo.
Flávio Bolsonaro negou anteriormente envolvimento no escândalo do INSS. Ele ainda não havia se manifestado sobre o endereço compartilhado até o fechamento. A defesa de Antunes também foi procurada, mas não respondeu.



