SÃO PAULO — A Polícia Civil de São Paulo registrou aumento de 38% nos suicídios e nas tentativas de suicídio relacionados à internet, às redes sociais ou a plataformas digitais em 2026, na comparação com 2025. A análise considera boletins de ocorrência registrados entre 1º de janeiro e 29 de junho de cada ano.
Foram identificados 134 casos em 2026: 84 tentativas e 50 mortes. No mesmo intervalo de 2025, foram 97 tentativas e 33 mortes. Não há dados comparáveis dos anos anteriores.
O Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) passou a investigar o tema depois que uma adolescente de 13 anos morreu durante uma transmissão ao vivo na internet. O alerta foi recebido no início da manhã do dia 22 de julho. Quando os investigadores conseguiram falar com os pais, passava das 6h. O caso ocorreu em Mato Grosso do Sul e levou a punições ao Discord, plataforma que transmitiu a maior parte da violência.
Como funcionavam os grupos
As investigações encontraram episódios de automutilação, aliciamento, coerção e chantagem em ambientes digitais. Parte dos casos envolvia grupos fechados, servidores, salas de conversa e comunidades privadas nos quais crianças e adolescentes compartilhavam conteúdos sobre cortes, automutilação e morte.
De acordo com a Polícia Civil, participantes dessas comunidades se aproximavam de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, criavam vínculos e depois faziam cobranças para que as vítimas praticassem autolesão ou cumprissem desafios. As exigências podiam envolver ameaças, chantagens e exposição de informações pessoais. Em alguns casos, a automutilação era apresentada como prova de lealdade ou meio de obter reconhecimento no grupo.
A delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, chefe do Noad, afirmou que as vítimas identificadas já tinham episódios anteriores de automutilação. “Já estão muito cortados, porque praticam a automutilação antes, como algo que antecipa a indução”, disse.
A psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, afirmou que a busca por pertencimento pode ser explorada nesses espaços. Segundo ela, a aproximação pode começar com atenção e acolhimento e evoluir para pedidos de segredos, imagens íntimas ou outras provas de confiança.
Diferenças entre os registros
Entre as 84 tentativas registradas em 2026, 62 envolveram meninas e 22, meninos. Nos casos de morte, foram 28 meninos e 22 meninas.
Scavacini afirmou que meninos historicamente apresentam maior risco de morte por suicídio, enquanto entre meninas aumentaram os comportamentos suicidas, sobretudo na pré-adolescência e na adolescência. Ela citou a pressão relacionada à aparência, a exposição nas redes sociais e diferentes formas de violência contra meninas.
Rodrigo Nejm, especialista em educação digital do Instituto Alana, disse que a experiência digital não causa sozinha comportamentos extremos, mas que a falta de proteção pode agravar o sofrimento emocional e contribuir para a normalização de conteúdos inadequados.
A indução, a instigação ou o auxílio ao suicídio ou à automutilação podem configurar crime previsto no artigo 122 do Código Penal. A legislação prevê agravantes em situações que envolvam redes sociais, aplicativos ou transmissão em tempo real. Segundo o professor de direito Hélio Ramos, casos nos quais a vítima tem menos de 14 anos podem ser classificados como homicídio.
Dados do Ministério da Saúde e do Sistema de Informações sobre Mortalidade indicam que suicídios e lesões autoprovocadas estão entre as principais causas externas de morte na faixa de 5 a 19 anos.
O Instituto Vita Alere oferece grupos de apoio a enlutados e familiares de pessoas com ideação suicida, além de cartilhas e cursos. A Abrases disponibiliza materiais informativos e indica grupos de apoio. O CVV oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, sob sigilo e anonimato, pelo telefone 188.


