A crença em uma força divina faz parte do cotidiano de 98% dos brasileiros, enquanto 73% afirmam usar versículos bíblicos como ensinamentos para a vida. Ao mesmo tempo, 68% dizem acreditar em espíritos bons ou maus, e 37% não descartam a reencarnação. Os dados são de um levantamento do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e da Quaest.
A pesquisa também identificou que 8 em cada 10 brasileiros se declaram católicos ou evangélicos. Os católicos representam 50% da população, e os evangélicos, 29%. A aceitação da reencarnação varia entre esses grupos: alcança 4 em 10 católicos e 2 em 10 evangélicos. A crença em espíritos aparece com o mesmo percentual nos dois segmentos, 68%.
Práticas e crenças populares
Entre os entrevistados, 73% relatam já ter tido o pressentimento de que algo ruim aconteceria. O uso de folhas e ervas naturais para cuidar da saúde é mencionado por 58%. O medo do mal-olhado chega a 2 em cada 3 pessoas, enquanto 47% acreditam em feitiço.
Há menor adesão a alguns costumes associados a superstições. Vestir branco no Ano Novo para atrair paz é uma prática de 36% dos entrevistados. Fazer simpatias na virada para buscar sorte aparece em 15%, e bater na madeira para evitar acontecimentos ruins, em 31%.
A certeza de que existe céu ou paraíso é compartilhada por 8 em 10 brasileiros. Entre os evangélicos, o índice chega a 92%. No grupo que declara não ter religião, formado por 14% da amostra, 64% também concordam com essa ideia. Mesmo sem uma religião formal, 88% dessas pessoas dizem ter fé.
Perfil religioso do país
O levantamento foi realizado entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro, com 15 mil pessoas de 16 anos ou mais, em 412 municípios. A margem de erro geral é de um ponto percentual.
Entre os católicos, 31% se consideram praticantes e 19% não. A maior presença dessa religião está no Nordeste, especialmente no Piauí, onde 73% professam a fé católica. O grupo também é predominante entre brasileiros com 60 anos ou mais, faixa em que reúne 65% da população.
Os evangélicos têm maior concentração no Norte, onde chegam a 4 em cada 10 pessoas. O Amazonas apresenta o maior percentual, com 45%. No Centro-Oeste, a presença é de 34%. A proporção também cresce entre os mais jovens e entre a população negra: 31% dos pretos e pardos são evangélicos, ante 26% dos brancos.
As Assembleias de Deus reúnem 32% dos fiéis, em sua maioria pentecostais, grupo que representa 7 em cada 10. Os chamados desigrejados correspondem a 10%.
Para a antropóloga Lívia Reis, do Iser, a pesquisa mostra que a identificação religiosa não forma um conjunto uniforme. “Tivemos casos, por exemplo, de uma pessoa autodeclarada católica praticante que frequentava uma Assembleia de Deus e acreditava em reencarnação”, afirmou.
A assessora de comunicação Johanna Sinclair, 44, que frequenta uma igreja batista em Campo Grande (MS), converteu-se ao evangelicalismo em 2008, mas mantém dúvidas sobre a reencarnação. Ela relata ter sido criada em um ambiente com referências ao espiritismo, à umbanda e ao catolicismo.
Já a professora de matemática Thaís dos Santos, 33, afirma que sua formação religiosa é evangélica. Ela frequenta o Ministério Apostólico Jesus para as Nações, em São Paulo, e considera real o mundo espiritual.
O pastor Pedro Barreto, da Comunidade Batista do Rio, diferencia a crença cristã em espíritos da ideia de reencarnação. Para ele, a doutrina cristã admite anjos e demônios, mas rejeita a possibilidade de uma alma retornar a outro corpo. A visão é associada à passagem bíblica segundo a qual cada pessoa morre uma vez e depois enfrenta o juízo.


