SÃO PAULO — Guilherme Derrite disputa uma vaga no Senado por São Paulo em 2026 com uma agenda centrada no endurecimento da segurança pública. Ex-secretário estadual da área, deputado federal e policial militar da reserva, ele enfrenta questionamentos sobre mortes em intervenções policiais, o caso do empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach e sua atuação no Congresso.
Derrite deixou o cargo de secretário de Segurança Pública em dezembro de 2025 para reassumir o mandato na Câmara. Em 2026, concorre pelo Progressistas (PP), no contexto da federação União Progressista, com apoio de Tarcísio de Freitas e alinhamento à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Formação e passagem pela Polícia Militar
Nascido em Sorocaba, Derrite entrou na Academia de Polícia Militar do Barro Branco em 2003. Ele concluiu, na instituição, os estudos em Ciências Sociais e Segurança Pública. Também se formou em Direito e fez pós-graduação em Ciências Jurídicas pela Universidade Cruzeiro do Sul.
Sua carreira na Polícia Militar passou pelo 14º Batalhão e pela Rota. Após alcançar a patente de capitão, foi para a reserva em 2018 e iniciou a trajetória política.
Seis inquéritos mencionados em 2024 tratavam de dez mortes ocorridas em operações da Rota das quais ele participou durante três anos e nove meses. Um sétimo procedimento dizia respeito a uma ação que terminou com seis mortos e envolveu policiais presos por tortura e assassinato. Derrite não foi denunciado criminalmente nesses casos.
Em 2018, foi eleito deputado federal pelo PP, com 119.034 votos. Em 2022, reelegeu-se pelo PL, então partido do presidente Jair Bolsonaro, com 239.772 votos. No mandato, atuou em temas de segurança pública e integrou a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado.
Gestão na Segurança Pública
Derrite comandou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo durante quase todo o primeiro mandato de Tarcísio de Freitas. Nesse período, dados do Ministério Público de São Paulo compilados pelo Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp) registraram aumento das mortes provocadas por policiais militares em serviço.
O número passou de 262 em 2022 para 357 em 2023 e chegou a 653 em 2024. No ano seguinte, foram contabilizadas 672 mortes em intervenções de PMs em serviço. Considerando situações mais amplas, com policiais em serviço e fora dele, o estado registrou 835 mortes decorrentes de intervenção policial em 2024, ante 542 em 2023, alta de 65%.
Na Baixada Santista, as Operações Escudo e Verão começaram em julho de 2023, após o assassinato do soldado Patrick Bastos Reis, da Rota, no Guarujá. As ações resultaram oficialmente em 84 mortes de civis e três de policiais militares.
Relatórios da Defensoria Pública paulista, de grupos de pesquisa e do Instituto Vladimir Herzog reuniram relatos de abusos, tortura, invasões de domicílios, alteração de cenas de crime e obstrução de câmeras corporais. Em outubro de 2025, Derrite classificou as denúncias de abusos como “mentirosas” e “infundadas”.
O caso Gritzbach
Antônio Vinícius Lopes Gritzbach era investigado por crimes relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e havia firmado acordo de colaboração premiada com o Ministério Público. Em seu depoimento, relatou informações sobre integrantes da facção e suspeitas de corrupção e extorsão envolvendo policiais civis.
Ele foi ouvido pela Corregedoria da Polícia Civil em 31 de outubro de 2024 e morto oito dias depois, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. O empresário tinha policiais militares em sua segurança particular, e Derrite afirmou que esses agentes já eram investigados havia cerca de um mês.
Em 2025, o Ministério Público denunciou 18 policiais militares por crimes ligados ao caso. Três foram acusados de participação direta na execução, 14 de integrar a escolta pessoal de Gritzbach e um de falsidade ideológica e prevaricação.
A divulgação, por Derrite, do nome e da fotografia de Kauê do Amaral Coelho também gerou questionamentos. O suspeito era apontado como responsável por monitorar Gritzbach e avisar os executores sobre a chegada da vítima. Kauê permanece foragido.
Atuação no Congresso
Ao retornar à Câmara, Derrite assumiu a relatoria do Projeto de Lei 5.582/2025, transformado no Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, conhecido como Lei Antifacção, Lei nº 15.358/2026. A proposta criou novos tipos penais, aumentou penas e ampliou mecanismos de bloqueio e perda de patrimônio.
Uma alteração apresentada pelo deputado previa que a Polícia Federal dependesse de provocação ou solicitação de autoridades estaduais em determinadas investigações sobre organizações criminosas. A PF avaliou que a mudança poderia afetar a autonomia da corporação e apurações de alcance interestadual e nacional. Também houve controvérsia sobre o papel do Ministério Público nas investigações.
Derrite deixou temporariamente a secretaria em 2024 para votar o projeto que extinguiu as saídas temporárias de presos. O texto foi aprovado pelo Congresso após a derrubada do veto presidencial. Em 2026, ele também passou a integrar a comissão especial da Câmara que analisa a redução da maioridade penal e declarou apoio à medida.
A trajetória partidária e as posições defendidas colocam Derrite no campo da direita conservadora. Depois de passar pelo PP e pelo PL, ele voltou ao Progressistas para disputar o Senado paulista.


