Douglas Ruas, candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro, é alvo de questionamentos relacionados a negócios privados, contratos públicos, investigações do Ministério Público e à influência política de sua família em São Gonçalo. O histórico inclui episódios envolvendo seu pai, Capitão Nelson, prefeito do município, e seu irmão, Nelson Ruas Filho, vereador na cidade.
Família e atuação política
Capitão Nelson foi citado na CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio, em 2008, a partir de informações do Disque-Denúncia que o relacionavam a um grupo paramilitar. O inquérito foi arquivado, sem condenação ou processo em curso por aquele episódio. Em 2024, Nelson apresentou à Justiça Eleitoral uma certidão informando que não respondia a processo relacionado ao caso.
Antes de chegar à Assembleia Legislativa e ao governo estadual, Douglas ocupou a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais da Prefeitura de São Gonçalo, administrada pelo pai. A pasta formulava convênios para a obtenção de recursos estaduais e federais. Desde 2020, o município recebeu R$ 250,5 milhões do chamado orçamento secreto. Desse total, R$ 17,2 milhões foram destinados à pavimentação por indicação do deputado federal Altineu Côrtes, presidente estadual do PL e ex-chefe de Douglas.
Doação e contrato municipal
Na campanha de 2022 para a Assembleia Legislativa do Rio, o empresário Carlos Freitas Neves doou R$ 160 mil à candidatura de Douglas. Três anos depois, uma empresa controlada por Neves assinou contrato de R$ 732 mil com a Prefeitura de São Gonçalo, para a locação de um imóvel destinado à Fundação Municipal de Saúde. O pagamento previsto era de R$ 61 mil mensais, e a contratação ocorreu por dispensa de licitação. A empresa havia sido criada dois meses antes da assinatura.
Mariana Barbosa de Souza, mulher de Douglas, havia sido sócia de Neves em duas empresas. Ele deixou essas sociedades em agosto de 2025, antes do contrato com a prefeitura. Douglas disse desconhecer a contratação e afirmou que não ocupava cargo municipal naquele momento. A prefeitura declarou que a locação seguiu os procedimentos legais.
Investigações e patrimônio
Em junho de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu apuração preliminar sobre a Saur Construção, Terraplanagem e Locação, empresa de Douglas e de seu irmão, e a DM Invest, sociedade que envolve Douglas e Letícia Felício. O órgão pediu informações sobre eventuais pagamentos do governo estadual. A Procuradoria-Geral do Estado respondeu que não encontrou pagamentos às duas empresas.
Também há um inquérito civil aberto em maio de 2023 para apurar possíveis atos de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito envolvendo Douglas e Thiago Saraiva, ex-secretário de Fazenda de São Gonçalo. Até agosto deste ano, o procedimento não havia sido concluído.
Entre 2023 e 2025, empresas ligadas a Douglas e à sua mulher compraram imóveis e precatórios avaliados, nas escrituras, em mais de R$ 15 milhões. Em documento registrado na Junta Comercial, a Saur informou ter R$ 19,6 milhões em lucros acumulados e previu distribuir o montante aos sócios até 2028. Douglas teria direito a aproximadamente R$ 15,9 milhões. Ele afirmou que a empresa atua no setor de logística e passou a investir em imóveis e ativos financeiros a partir de 2023.
Auditoria em contratos estaduais
Uma auditoria em contratos da Secretaria estadual de Cidades, comandada por Douglas entre 2023 e março de 2026, apontou possíveis irregularidades e foi encaminhada às autoridades responsáveis. Um dos pontos foi um aditivo de aproximadamente 45% em um contrato de recapeamento, que teria aumentado de R$ 99,7 milhões para R$ 144,9 milhões.
O relatório também citou relações empresariais envolvendo pessoas próximas a Altineu Côrtes. Como o deputado possui foro, o caso foi enviado à Procuradoria-Geral da República para avaliação. Douglas e os demais citados negaram irregularidades.
Os procedimentos não comprovam, por si só, que Douglas tenha cometido crime. Parte das apurações continua em andamento, enquanto o caso envolvendo seu pai foi arquivado. Os episódios, contudo, colocam sob análise a atuação política da família, as relações empresariais e o uso de recursos públicos em São Gonçalo e no governo estadual.



