Uma revisão publicada em abril no Journal of Behavioral Addictions concluiu que a dependência de exercício existe, mas provavelmente é mais rara do que sugerem parte dos estudos científicos. A análise foi conduzida por pesquisadores das universidades ELTE Eötvös Loránd e Széchenyi István, na Hungria, e Flinders, na Austrália.
Os trabalhos avaliados classificaram entre 3% e 42% dos praticantes como pessoas em risco de dependência. Em grupos específicos, os índices foram de 6,1% entre ciclistas espanhóis, 15,4% entre maratonistas italianos e 7,6% entre atletas dinamarqueses de elite. Segundo os autores, a variação pode estar ligada às diferenças entre modalidades e populações, ao uso de amostras pequenas e selecionadas e à interpretação de questionários de rastreamento como se fossem instrumentos de diagnóstico.
Attila Szabo, Zsolt Demetrovics e Bhavya Chhabra afirmam que pontuações elevadas podem refletir paixão, perfeccionismo ou comprometimento com o esporte, e não necessariamente uma patologia. “A verdadeira dependência de exercício é, provavelmente, rara”, dizem os pesquisadores.
Quando a prática pode indicar um problema
Uma das ferramentas mais usadas é a Exercise Dependence Scale (EDS), que avalia sete aspectos da relação com o treinamento. Entre eles estão a necessidade de aumentar progressivamente o volume de exercícios, o desconforto quando a prática é interrompida, a dificuldade de controlar a atividade e a continuidade dos treinos apesar de prejuízos.
Everton Crivoi, responsável pela preparação física do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação, do Einstein Hospital Israelita, ressalta que uma pontuação alta não confirma um diagnóstico. Organizar a rotina em torno dos treinos e manter dedicação elevada pode fazer parte da vida de muitos atletas. Mesmo um volume alto de exercício não caracteriza transtorno quando não há prejuízos.
O alerta deve ser considerado quando a pessoa não consegue interromper a prática, continua treinando mesmo doente ou lesionada ou sofre alterações importantes de humor. Para Crivoi, a dedicação aos exercícios não deve ser tratada como prova de disciplina, nem a ausência em uma sessão como sinal de fraqueza.
A discussão sobre a possível dependência de exercício começou em 1970, quando o psiquiatra estadunidense Frederick Baekeland observou alterações no sono, aumento da ansiedade e tensão sexual em estudantes impedidos de treinar. Em 1976, William Glasser criou a expressão “dependência positiva” para descrever uma relação intensa com atividades consideradas benéficas, como exercícios e meditação. Em 1979, o psicólogo do esporte William Morgan contestou essa interpretação e apontou possíveis danos do excesso.
Na caracterização proposta por Szabo, Demetrovics e Chhabra, o exercício pode se tornar central na rotina e ser usado para regular o humor. A redução da prática pode ser seguida por recaídas. Os pesquisadores distinguem a dependência primária, em que a recompensa está no próprio exercício, da secundária, quando o excesso serve a outro problema. Pressões relacionadas à aparência e ao desempenho, ansiedade, depressão, transtornos alimentares, transtorno dismórfico corporal e dismorfia muscular estão entre as condições associadas.
Efeitos do excesso e formas de cuidado
Os danos de cargas excessivas podem ocorrer mesmo sem dependência. A combinação prolongada de sobrecarga e recuperação insuficiente pode provocar síndrome de excesso de treinamento, ou overtraining, com queda persistente do desempenho, fadiga e alterações hormonais e neuroquímicas.
Também pode ocorrer síndrome de deficiência energética relativa no esporte, conhecida como RED-S, quando a ingestão de energia não compensa o gasto dos exercícios. Um consenso do Comitê Olímpico Internacional, publicado em 2023 no British Journal of Sports Medicine, associa a condição a alterações hormonais, comprometimento da saúde óssea e outras repercussões fisiológicas.
Entre atletas submetidos por anos a treinamentos intensos em esportes de resistência, estudos identificaram maior risco de algumas arritmias, principalmente fibrilação atrial. Uma revisão estimou que esse risco é de três a cinco vezes maior do que entre adultos saudáveis. Exercícios muito intensos também podem causar rabdomiólise por esforço, que destrói células musculares e pode levar à insuficiência renal em casos graves. Uma revisão publicada em 2023 analisou 772 pacientes e apontou que a maioria dos casos ocorreu após corrida, sobretudo maratonas, e levantamento de peso.
Quando há perda de controle ou prejuízos, a recomendação não é necessariamente abandonar a atividade física. O tratamento busca recuperar o controle sobre o comportamento, incluir períodos adequados de descanso e investigar fatores associados à compulsão. Os autores defendem uma entrevista clínica de acompanhamento, em vez do uso isolado de uma escala de rastreamento.
A terapia cognitivo-comportamental é a abordagem mais estudada, embora as evidências sobre o tratamento ainda sejam limitadas. Para Crivoi, o objetivo é devolver equilíbrio à relação com o treinamento, com mais flexibilidade e compreensão de que não há problema em perder dias de exercício.


