A nicotina vem sendo apresentada em redes sociais, podcasts, comunidades de bem-estar e startups de tecnologia como um recurso para melhorar o foco, a produtividade e o desempenho cognitivo. A tendência acompanha, de forma paralela, o movimento Make America Healthy Again (MAHA) e tenta dissociar a substância de sua relação com o tabagismo.
A promoção ocorre por meio de produtos não combustíveis, como sachês de nicotina, e de combinações com cafeína e nootrópicos, substâncias comercializadas para aprimorar o desempenho cognitivo. A justificativa costuma destacar que a nicotina é um composto vegetal encontrado principalmente no tabaco e, em quantidades mínimas, em tomates, batatas e berinjelas.
O que as evidências mostram
A nicotina é o principal fator responsável pela dependência associada ao tabaco em cigarros, cigarros eletrônicos e outras formas de produtos comerciais. A queima do tabaco produz milhares de substâncias tóxicas, entre elas carcinógenos, monóxido de carbono e partículas finas. Essa exposição está relacionada a câncer, doença pulmonar obstrutiva crônica, doenças cardiovasculares e outras enfermidades ligadas ao tabagismo.
A própria nicotina também tem efeitos conhecidos sobre o organismo. Ela ativa o sistema nervoso simpático, elevando a frequência cardíaca e a pressão arterial e perturbando o sono. A exposição durante a gestação está associada a efeitos adversos no crescimento e no desenvolvimento fetal. Na adolescência, pode alterar sistemas neurais envolvidos na atenção, na aprendizagem e na recompensa, aumentando a vulnerabilidade à dependência.
A substância atua em receptores ligados à acetilcolina e influencia a liberação de neurotransmissores, incluindo a dopamina. Com o uso repetido, o cérebro se adapta: os receptores ficam menos responsivos e aumenta o número de receptores de nicotina, processo que contribui para a dependência.
Alguns estudos apontam efeitos temporários sobre atenção, vigilância, tempo de reação e certos aspectos da memória de trabalho. Os resultados, porém, são contraditórios. A nicotina pode beneficiar pessoas com comprometimento cognitivo leve, mas não parece melhorar a cognição de indivíduos saudáveis e pode prejudicar o desempenho de pessoas com desempenho superior.
Além disso, parte das pesquisas envolve usuários regulares. Quando interrompem o consumo, essas pessoas podem apresentar dificuldade de concentração, irritabilidade, ansiedade, inquietação e redução da atenção. A retomada da nicotina frequentemente alivia esses sintomas, o que dificulta distinguir um aprimoramento cognitivo real da reversão da abstinência.
Estresse, envelhecimento e tratamento
A nicotina pode provocar uma sensação temporária de prazer e bem-estar ao ativar as vias de recompensa do cérebro. O uso prolongado, entretanto, pode interferir no sistema de resposta ao estresse. Pesquisas indicam que pessoas que deixam de fumar apresentam, ao longo do tempo, redução da ansiedade, da depressão e do estresse, além de melhora do humor e da qualidade de vida.
Também não há demonstração, em estudos com seres humanos, de que a nicotina previna demência, retarde a doença de Alzheimer, preserve a função cognitiva a longo prazo ou melhore os resultados na doença de Parkinson. Resultados de pesquisas laboratoriais e com animais não comprovam que a substância promova envelhecimento saudável, prolongue a expectativa de vida ou previna doenças relacionadas à idade.
As terapias de reposição de nicotina aprovadas pela FDA, como adesivos, gomas de mascar e pastilhas, ajudam pessoas dependentes a reduzir sintomas de abstinência e desejo compulsivo, facilitando a interrupção do tabagismo. Esse uso terapêutico, feito conforme as instruções, não deve ser confundido com a ideia de que a nicotina melhora a cognição, promove bem-estar ou contribui para um envelhecimento saudável. Fora de um tratamento baseado em evidências para interromper ou reduzir o consumo de tabaco, produtos com nicotina podem levar ao desenvolvimento de dependência.


