A infecção pela bactéria H. pylori responde por 78% da carga de câncer gástrico no Brasil, segundo um estudo que relacionou a prevalência estimada do microrganismo ao risco associado à infecção. A dificuldade para identificar e erradicar a bactéria ocorre enquanto a projeção de novos casos segue em alta no país.
Para o triênio iniciado em 2026, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima 22,5 mil diagnósticos. O número supera as projeções de 21,2 mil para 2020-2022 e de 21,4 mil para 2023-2025. É o terceiro ajuste consecutivo para cima nas estimativas. A tendência de crescimento deve continuar até 2028, segundo especialistas.
A taxa de mortalidade do câncer gástrico passa de 60%. Dados do Inca registram 12.435 mortes em 2005. O número chegou a 13 mil em 2007, a 14 mil em 2013 e a 15 mil em 2019. Em 2024, último ano disponível na base de dados, foram 14,9 mil mortes.
Infecção e diagnóstico
O gastroenterologista James Ramalho Marinho, da Federação Brasileira de Gastroenterologia, associa a mortalidade ao diagnóstico tardio. A doença pode não provocar sintomas, e pacientes chegam ao atendimento suspeitando de anemia ou de problemas gástricos menos relevantes quando o quadro já está avançado. Ele também afirma que o Sistema Único de Saúde não consegue monitorar e tratar a infecção em escala suficiente.
A estimativa é de que 70% da população brasileira tenha H. pylori. Marinho diz que a rede pública não tem condições de oferecer endoscopia ou exames menos invasivos para todo esse contingente.
O contágio está relacionado a más condições sanitárias e à falta de saneamento básico. Para o endoscopista e gastroenterologista Ismael Maguilnik, a transmissão ocorre sobretudo pelo contato da água com dejetos, o que torna a bactéria mais prevalente em países pobres e em populações em vulnerabilidade socioeconômica.
Depois da infecção, pode ocorrer uma sequência de alterações conhecida como cascata de Pelayo Correa. A inflamação persistente da mucosa pode evoluir para gastrite crônica, atrofia, metaplasia intestinal e displasia, alteração considerada pré-cancerosa. Em parte dos pacientes, o processo pode culminar no adenocarcinoma gástrico, tipo mais comum de câncer de estômago.
Tratamento e prevenção
O tratamento costuma combinar antibióticos com medicamentos que reduzem a acidez do estômago. Entre os antibióticos utilizados estão amoxicilina, claritromicina, metronidazol e tetraciclina. A escolha depende do esquema indicado, de alergias e do perfil de resistência da bactéria.
A resistência a alguns medicamentos aumentou, e as diretrizes mais recentes recomendam evitar antibióticos quando não há evidência de sensibilidade. Maguilnik defende a ampliação do uso de um teste respiratório à base de carbono 13, não radiativo, para identificar precocemente a infecção. Segundo o Ministério da Saúde, ainda não há pedido de incorporação e avaliação dessa tecnologia pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Os especialistas recomendam iniciar o rastreamento aos 30 anos para pessoas com histórico familiar de câncer gástrico. Para quem não tem histórico familiar ou problemas gástricos, a recomendação é aos 40 anos. Também são indicados cuidados como higienizar alimentos e as mãos e evitar contato com água de qualidade desconhecida.
O Ministério da Saúde informou que, neste ano, começam a ser disponibilizados 23 novos medicamentos para o tratamento do câncer, aumento de 35% na oferta da rede pública. Entre eles está o trastuzumabe, que pode reduzir ou eliminar tumores de câncer de estômago HER2 positivo em até 50% dos casos.


