A vitória de Anne Carson no Nobel de Literatura, anunciada nesta quinta (8), recoloca em evidência uma característica central de sua obra: a resistência a definições estáveis. Poeta, romancista, tradutora, classicista, feminista, dramaturga e ensaísta são alguns dos rótulos associados a ela, mas a própria autora rejeita essas classificações.
Essa recusa também aparece nos títulos e subtítulos de seus livros. Seu primeiro poema, Cannicula di Anna, publicado em 1984, é chamado por Carson de “um ensaio”. A tese de doutorado Eros, o Doce-Amargo, publicada dois anos mais tarde, recebeu o mesmo subtítulo.
Em Autobiografia do Vermelho, de 1998, a autora combina um título autobiográfico a uma obra que não é autobiográfica e a define como “um romance em versos”. Já A Beleza do Marido, de 2001, é apresentado como “um ensaio ficcional em 29 tangos”. A escolha desses termos produz uma tensão entre o nome dado à obra e aquilo que o leitor espera encontrar nela.
Clássicos e referências modernas
O diálogo com textos clássicos em grego e latim atravessa a produção de Carson. Em Eros, o Doce-Amargo, publicado no Brasil em 2022 pela Bazar do Tempo, e em Economy of the Unlost, ainda não traduzido para o português, ela parte de Safo e Simonides para refletir sobre o surgimento de uma ideia de indivíduo e do desejo de completude.
“Quem é o verdadeiro sujeito da maioria dos poemas de amor? Não é a pessoa amada. É aquele buraco”, escreve Carson em Eros, o Doce-Amargo. A imagem do vazio também aparece em suas reflexões sobre a linguagem e sobre a dificuldade de nomear as coisas.
Suas referências incluem Gustave Flaubert, Marilyn Monroe, Virginia Woolf e Yves Klein. Em Economy of the Unlost, a autora compara os epigramas de Simonides de Keos à poesia de Paul Celan. Em Autobiografia do Vermelho, o pensamento de Martin Heidegger ocupa lugar importante. No texto “Descriação”, da coletânea Ensaio sobre Aquilo em que Mais Penso, aparece Simone Weil.
O poema “Ensaio sobre Aquilo em que Mais Penso”, de 1999, trata do erro a partir de um fragmento atribuído a Álcman, poeta grego que viveu no século 7º a.C. O que parece um erro aritmético é transformado em gesto artístico e em fonte de significados possíveis.
Em Wrong Norma, seu livro mais recente, Carson volta a questionar as formas convencionais do romance. A obra deve sair pela 34 no próximo ano. Quando precisa apresentar uma definição para seus editores, ela recorre a uma fórmula simples: “Anne Carson nasceu no Canadá e é professora de grego antigo”. A essa descrição pode agora ser acrescentado que ela venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026.


