Isabella Miranda, travesti marajoara, escritora, professora de bajubá e formada em Letras, relata em um ensaio como deixou de depender da prostituição e passou a construir uma trajetória na literatura, no teatro e no serviço público. A mudança é apresentada a partir de uma mensagem enviada por um antigo cliente, que associou seu afastamento da prostituição à militância política.
Durante o período em que trabalhava nas ruas, Isabella afirma que permanecia 24 horas por dia produzida para atender clientes. As travestis mais antigas, segundo ela, diziam que era necessário aproveitar a juventude e reunir dinheiro para colocar prótese nos seios e fazer outros procedimentos associados ao reconhecimento dentro daquele ambiente.
Novas possibilidades
A autora conta que concluiu a faculdade, lançou um livro por uma das maiores editoras do país, atuou em um espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo e foi aprovada em um concurso público. Essas experiências, escreve, apresentaram outras formas de buscar realização pessoal e reduziram a necessidade de manter a aparência exigida pela prostituição.
Isabella também descreve a relação com os clientes. Ela diz que muitas vezes conversava mais do que fazia sexo e compara essa escuta ao trabalho de uma psicóloga. Segundo o relato, os homens falavam sobre suas famílias, viagens e dificuldades, enquanto demonstravam surpresa ao encontrar uma travesti que já não estava disponível para atendê-los.
A escritora interpreta essa reação como incômodo diante da conquista de espaços profissionais e artísticos por pessoas que, na visão desses clientes, deveriam permanecer restritas à prostituição. Ela relaciona essa expectativa à ideia de que certos direitos, experiências e oportunidades pertenceriam apenas às famílias dos homens que a procuravam.
Isabella cita Thaís Azevedo, militante histórica que morreu recentemente, ao tratar da pressão estética enfrentada pelas travestis. A autora sustenta que elas podem deixar de depender da objetificação para sobreviver e afirma que a arte passou a ocupar um lugar central em sua vida.
O ensaio termina com a possibilidade de que a frase do cliente não expressasse preocupação política, mas a percepção de que o dinheiro dele já não era suficiente para levá-la para a cama. Isabella também conta que passou a ser convidada para palestras e descobriu uma nova geração de travestis em sua cidade no Marajó, que a vê como inspiração.
A arte que acompanha o texto foi criada a partir de fotos antigas de seus anúncios. Antes usadas para atrair clientes, as imagens passaram a ser apresentadas ao lado de textos de pensadores e intelectuais, em um novo contexto.
Isabella Miranda é apresentada como professora de bajubá, linguagem secreta e cifrada usada pela comunidade LGBTQIA+.


