Lee Chang-dong apresentou “Possible Love” na competição do Festival de Veneza, encerrando um intervalo iniciado após “Em Chamas”, que recebeu o prêmio da crítica no Festival de Cannes em 2018. O novo longa retoma a combinação de conflitos sociais, dilemas existenciais e relações ambíguas associada ao trabalho do diretor sul-coreano.
Desigualdade e desejo
A produção integra originalmente um projeto internacional inspirado no “Decálogo”, série lançada no fim dos anos 1980 por Krzysztof Kieslowski a partir dos Dez Mandamentos da Bíblia. A proposta reúne dez diretores, cada um responsável por desenvolver um filme baseado em um dos mandamentos. Com a entrada da Netflix como produtora, “Possible Love” passou a seguir um caminho próprio, mas manteve a referência bíblica.
O ponto de partida é “Não cobiçarás coisas alheias”. A trama acompanha dois casais de condições econômicas diferentes. Ye-ji, diretora de documentários, vive com Sang-woo, um empresário bem-sucedido. Ao investigar as demissões promovidas por uma grande companhia sul-coreana, ela conhece Mi-ok, que sustenta a casa depois que o marido, Ho-seok, perde o emprego e passa a beber em excesso.
Ye-ji registra os relatos de Mi-ok e tenta levar Ho-seok a participar do documentário. O desempregado aceita depois de muita resistência, durante uma estadia em uma casa de praia com os dois casais. Ao ganhar a confiança da cineasta, ele expõe seus problemas, enquanto Sang-woo e Mi-ok percebem uma atração entre eles.
O longa constrói relações marcadas por dependência, interesse, desejo e rejeição. Com quase três horas, combina observação social e crise pessoal. A precisão da encenação produz um filme elaborado para atender às expectativas da crítica especializada, mas também reduz a sensação de espontaneidade.
Outros filmes em disputa
“Woman Unknown”, da dinamarquesa May el-Toukhy, também chegou à competição com expectativa de prêmios. A história se passa depois do fim da Segunda Guerra e acompanha uma empregada doméstica que se casa com um industrial viúvo. O matrimônio é ameaçado pelo surgimento de um homem da cidade natal dela, que revela seu relacionamento anterior com um soldado alemão durante a ocupação nazista da Dinamarca.
A obra aborda a punição pública dirigida às mulheres que se envolveram com o inimigo e o tratamento diferente dado aos homens que negociaram com os nazistas. A atuação de Mathilde Arcel é um dos destaques do filme.
Já “The Echo Chamber”, do italiano Andrea Pallaoro, recebeu as reações mais negativas entre os filmes mencionados. Luca Marinelli interpreta um músico em crise, que tenta diminuir o consumo de drogas e remédios com a ajuda de uma cantora veterana, vivida por Susan Sarandon. Alicia Vikander interpreta uma enfermeira que procura ajudar o namorado deprimido.
O filme italiano, falado em inglês, foi criticado pelo ritmo lento, pelos silêncios e pela indefinição da trama. Ao final da sessão para a imprensa, foram ouvidas gargalhadas atribuídas à zombaria e ao alívio pelo encerramento da projeção.


