BUENOS AIRES — A minissérie “Meus Mortos Tristes”, lançada pela Netflix, transforma três contos de Mariana Enriquez em uma única narrativa sobre mortos que circulam por Piedrabuena, na periferia de Buenos Aires. Dirigida pelo chileno Pablo Larraín, a produção acompanha uma médica recém-aposentada capaz de ver e ouvir os mortos, interpretada por Mercedes Morán.
A história começa a se desorganizar quando a visita da sobrinha Julie coincide com o assassinato de três adolescentes. Os mortos permanecem ligados ao bairro, conservam marcas da violência e cobram dos vivos aquilo que lhes foi negado. O sobrenatural, nesse cenário, expõe feridas políticas e sociais sem apagar as circunstâncias que deram origem a elas.
Os quatro episódios foram adaptados a partir do livro “Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria”, publicado na Argentina em 2024 e lançado no Brasil em junho. Enriquez assina o roteiro com Larraín, Guillermo Calderón e Anastasia Ayazi. A autora afirmou que passou a se considerar coautora de uma obra nova, já que a adaptação exigiu reorganizar os contos e criar uma narrativa para a tela.
A minissérie também foi exibida como um filme de 187 minutos no Festival de San Sebastián, na Espanha. Foi a primeira vez, em 74 anos de evento, que uma série competiu pela Concha de Ouro. Larraín explicou que o conteúdo permaneceu o mesmo e que os capítulos apenas foram agrupados para a sessão do festival.
Para Enriquez, o terror da produção está menos nos fantasmas do que no que a sociedade esconde. A escritora relaciona a atmosfera do bairro à arquitetura de Piedrabuena, onde conjuntos habitacionais dividem a paisagem com um hospital e uma universidade pública. Ela também associa a sensação de desamparo a estruturas sociais que perderam sua função de proteção.
A autora rejeita, porém, uma leitura limitada à conjuntura atual. Em entrevista, relacionou a paranoia dos personagens a uma experiência histórica mais longa da América Latina, marcada pelo medo da repressão e da denúncia durante sua infância, nos anos 1970. Para ela, os fantasmas representam tanto o que passou quanto aquilo que continuou agindo.
Outras adaptações e a trajetória literária
“Meus Mortos Tristes” é a segunda incursão da obra de Enriquez no audiovisual. Em janeiro de 2025, “A Virgem da Pedreira”, dirigida por Laura Casabé a partir de roteiro de Benjamín Naishtat, foi exibida no Festival de Sundance. Disponível na HBO Max, a produção adapta dois contos de “Os Perigos de Fumar na Cama” e se passa na Buenos Aires de 2001.
A escritora publicou seu primeiro romance em 1995 e ganhou projeção com “Os Perigos de Fumar na Cama”, de 2009. Em 2019, “Nossa Parte de Noite” venceu o Prêmio Herralde. Para a pesquisadora Maria Luiza Staut, Enriquez abriu espaço para outras autoras latino-americanas ligadas ao horror, ao suspense e ao estranho.
Entre os nomes associados a essa produção estão Samanta Schweblin, Fernanda Melchor, Mónica Ojeda, Giovanna Rivero e Elaine Vilar Madruga. No Brasil, a pesquisadora cita Verena Cavalcante e Ana Paula Maia. Enriquez prepara ainda “Conversación con la Oscuridad”, livro de ensaios previsto para outubro, sobre terror, política, história e traumas sociais na América Latina.


