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Cultura

Tinariwen transforma experiência tuaregue em música no Brasil

Em shows no país, grupo do Saara combina guitarras, ritmos tuaregues e letras em tamasheq para aproximar públicos de diferentes culturas.

Tinariwen transforma experiência tuaregue em música no Brasil
Foto: Otavio Valle/Folhapress

O Tinariwen voltou ao Brasil depois de dez anos e encontrou plateias que dançaram ao som de músicas cantadas quase inteiramente em tamasheq, língua dos tuaregues do Saara. Mesmo sem compreender as letras, o público acompanhou os riffs de guitarra, as palmas e os movimentos dos seis integrantes.

A passagem pelo país incluiu apresentações no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no Sesc Franca e no Sesc Pompeia, onde o grupo tocou em 24 e 25 de setembro. A turnê terminou no Mimo Festival, em Olinda.

Durante os shows, os músicos interagiram com a plateia por meio de gestos e arriscaram palavras como “obrigado” e “merci”. O repertório incluiu “Azawad”, que abriu a apresentação, além de “Amassakoul 'n' Ténéré” e “Tiwàyyen”, faixas marcadas pela combinação de guitarra e palmas ritmadas.

“A música é uma língua que conecta todo mundo”, afirma Abdallah Ag Alhousseyni, cofundador, vocalista e guitarrista do Tinariwen. Para ele, uma canção pode provocar reações mesmo quando o ouvinte não entende as palavras.

Música, identidade e deslocamento

No show de 25 de setembro, no Sesc Pompeia, Abdallah recebeu de tuaregues na plateia uma bandeira do Mali. Ele a levou ao palco, a ergueu e depois a amarrou ao pedestal do microfone. No bis, o guitarrista Sadam ag Ibrahim colocou um boné do MST que havia recebido do público.

O som do grupo reúne elementos do rock e do blues, além de referências ao country e ao folk americano. As baladas “Imidiwan Takyadam” e “Toumast Tincha” também fizeram parte da apresentação. A identidade tuaregue aparece nas roupas dos músicos, com tecidos azuis e índigo e o rosto branco associado ao tagelmust, turbante tradicional usado para proteção contra o clima do deserto.

Formado em 1979 entre comunidades nômades espalhadas pelo Saara, o Tinariwen surgiu em uma região que hoje atravessa Mali, Argélia, Líbia e Níger. O nome significa deserto. A banda é apontada como uma das pioneiras do desert blues, que combina ritmos tradicionais tuaregues, canto coletivo e guitarras elétricas influenciadas pelo rock e pelo blues.

A trajetória do grupo acompanha deslocamentos vividos pelos tuaregues. Os integrantes passaram por campos de refugiados e pela Argélia e pela Líbia; alguns também receberam treinamento militar. Em 1990, no Mali, parte dos músicos participou da revolta tuaregue contra o governo. Após os acordos de paz, o grupo abandonou as armas e se dedicou à música no exílio.

Antes de chegar a palcos internacionais, o Tinariwen tocava em festas e casamentos pelo Saara e distribuía suas músicas em fitas cassete. O reconhecimento fora do norte africano cresceu a partir dos anos 2000. Em 2012, “Tassili” recebeu o Grammy de melhor álbum de world music.

Canções como memória

Abdallah diz que o ambiente vivido pelo músico influencia sua criação. “Em São Paulo, poderiam aparecer máquinas, aviões, o ruído da cidade. No deserto, aparecem outras sensações”, afirma. A banda alcançou músicos como Robert Plant, Thom Yorke e José González, que participa de “Hoggar”, disco mais recente do grupo, lançado neste ano. No Brasil, Seu Jorge e Juçara Marçal acompanharam a apresentação no Pompeia.

Para o vocalista, as canções não tratam apenas de tristeza ou guerra. Elas narram a história tuaregue, falam de alegria e procuram estimular o ânimo e a continuidade das reivindicações da população. O músico afirma que as fronteiras estabelecidas pela geopolítica contemporânea dificultam a manutenção do modo de vida tradicional, historicamente marcado pelo nomadismo.

Segundo Abdallah, o conflito que envolve os tuaregues há mais de seis décadas é uma disputa de pessoas que querem ser livres e independentes. Ele também afirma que militares malianos e mercenários russos do grupo Wagner têm atacado comunidades da região. Essa experiência de violência e deslocamento aparece em “Hoggar”.

A circulação internacional da banda também foi afetada por fronteiras. A turnê que levaria o Tinariwen aos Estados Unidos foi cancelada depois que o governo Donald Trump ampliou restrições de entrada que atingem cidadãos do Mali.

No encerramento, Abdallah associou a permanência da música à esperança: “É essa esperança no coração que faz com que os músicos consigam que o tempo passe e a música permaneça.”

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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