A dependência de um único tema pode limitar a renda e a permanência de influenciadores nas redes sociais. Para reduzir essa oscilação, criadores que ganharam visibilidade com casamento, realities ou Enem passaram a explorar assuntos relacionados e a buscar diferentes formas de monetização.
Da preparação do casamento a novos assuntos
Christy Lima Cabrera começou a publicar no TikTok dicas reunidas durante os preparativos para o próprio casamento. O primeiro vídeo passou de 40 mil visualizações, e a resposta do público levou empresas a procurá-la para parcerias.
Na época, ela ocupava um cargo de liderança no mercado financeiro, setor em que trabalhava havia 14 anos. Com o aumento da produção de conteúdo e da sobrecarga profissional, decidiu deixar o emprego formal. Após voltar da lua de mel, retornou ao trabalho, mas pediu demissão no dia seguinte.
O desafio seguinte foi manter o perfil ativo depois da cerimônia. Como o casamento deixou de ser o centro da rotina, Christy passou a tratar de moda, viagens e estilo de vida. A pedido das seguidoras, também abriu uma conta voltada a conceitos básicos de finanças e investimentos.
“Tem sido um período desafiador e de muito trabalho, mas tenho apostado em conteúdos nos quais acredito e que fazem sentido para mim”, afirma. Ela ainda recusa propostas comerciais que considera distantes de seu conteúdo e, como não alcança a renda desejada apenas com a internet, utiliza programas de afiliados de grandes empresas do comércio eletrônico.
Especialização e vínculo com a audiência
Rafaela Lotto, CEO da Youpix, afirma que a migração para outros temas é comum entre criadores que começam concentrados em um nicho. Para ela, a permanência de um influenciador depende menos do assunto original e mais da relação formada com os seguidores.
A especialização, porém, continua relevante na chamada Creator Economy. Pesquisas indicam que perfis concentrados em um tema tendem a formar comunidades mais fiéis e a conquistar a confiança do público. Levantamento da Sprout Social mostra que 47% dos usuários consideram os assuntos tratados por influenciadores antes de decidir se vão segui-los.
O mesmo estudo aponta vantagem dos perfis especializados quando o público procura aprender, obter recomendações ou participar de comunidades ligadas a interesses específicos. Nesse cenário, explorar um assunto por diferentes formatos pode ajudar a manter a atenção.
Realities e Enem fora da temporada principal
Caio Barbosa, conhecido como “o garoto dos realities”, começou a produzir conteúdo durante a pandemia de Covid-19. Seu primeiro vídeo superou 1 milhão de visualizações. Ele havia trabalhado como gerente de marketing de influência e escolheu falar de realities por já ter repertório e interesse no tema.
A audiência costuma crescer nos primeiros meses do ano, durante o Big Brother Brasil. Quando o programa termina, Barbosa direciona parte do conteúdo para realities de outros países, com frequência priorizando aqueles que têm participantes brasileiros. Atualmente, reúne mais de 1,3 milhão de seguidores no TikTok e no Instagram.
Lucas Felpi ganhou projeção entre 2018 e 2019, depois de mencionar a série “Black Mirror”, da Netflix, em uma redação nota 1.000 no Enem. A procura por orientações para o exame trouxe público, mas também deixou a receita sujeita ao calendário da prova.
Para ampliar as possibilidades, Felpi passou a recomendar filmes úteis aos estudos e a apresentar estratégias para diferentes etapas da preparação. Mais tarde, incorporou assuntos ligados à própria trajetória, como estudar nos Estados Unidos e a vida universitária no exterior.
Formado em engenharia da computação, ele reduziu o ritmo das publicações para dedicar mais tempo à vida pessoal. Hoje mora em Nova York e trabalha como engenheiro de software em uma empresa de tecnologia. Mesmo assim, publica anualmente uma cartilha sobre o Enem e soma mais de 700 mil seguidores no Instagram e no YouTube.
A renda ainda é concentrada no trabalho fixo
Dados da Youpix mostram que 29% dos influenciadores vivem exclusivamente da criação de conteúdo. Outros 53,5% conciliam a atividade com um trabalho fixo. Entre os que dependem apenas das redes, a maioria atua no mercado há mais de três anos, indicando que a transição costuma ser gradual.
A maior parte da renda de Lucas Felpi vem do emprego fixo, também porque ele passou a publicar com menor frequência. A criação de conteúdo, portanto, permanece associada a estratégias de diversificação, planejamento para períodos de menor interesse e fontes complementares de receita.


