O custo da energia responde por parcela relevante do preço de produtos e serviços no Brasil e foi responsável por 68% da alta de 48 itens analisados entre 2000 e junho de 2026. O levantamento foi elaborado pela Ex Ante Consultoria Econômica a pedido da Abrace, entidade que representa grandes empresas consumidoras de energia.
No pãozinho, quase 30% do preço corresponde a gastos energéticos: 18,7% vêm da eletricidade e do gás usados nos fornos, enquanto outros 11% estão relacionados ao combustível necessário para transportar os insumos. Em 2000, o produto custava cerca de R$ 0,15. Hoje, está perto de R$ 1. Do aumento de R$ 0,85, aproximadamente R$ 0,73, ou 86%, é atribuído ao encarecimento da energia ao longo da cadeia produtiva.
Fernando Garcia, coordenador do estudo e sócio-diretor da Ex Ante, afirmou que o objetivo é mostrar às famílias o custo energético embutido nos bens e serviços. Dos gastos dos brasileiros com energia elétrica, 35% correspondem diretamente à conta de luz. No caso do gás, 14% são despesas na cozinha ou no chuveiro; o restante está incorporado aos produtos e serviços.
“As pessoas enxergam quanto gastam com tarifa de energia, para comprar um botijão ou abastecer o carro no posto, mas não veem a conta invisível que está embutida na produção”, disse Garcia.
Impacto nos produtos e serviços
A energia equivale a 34% do preço final de um caderno escolar, 32% do cimento, 30% do vidro, 27% da carne, 19% do café moído e 12% de um automóvel. A análise considerou 48 bens e serviços, equivalentes a 32,6% da cesta do IPCA, com base no peso médio de cada item ao longo deste ano.
Nos 26 anos avaliados, a energia respondeu por 79% da alta do leite longa vida, 71% do aumento do preço de um tênis, 61% da elevação da cerveja e 53% da alta do desodorante. No prato feito consumido fora de casa, 23% do aumento foi associado à energia, incluindo gastos com preparo, refrigeração e ar-condicionado.
O saneamento também teve forte elevação das despesas. Os gastos com eletricidade no setor passaram de R$ 2,9 bilhões em 2010 para R$ 9,1 bilhões em 2024, alta de 213%. A despesa com produtos químicos intensivos em energia avançou 369%, principalmente por causa do cloro. Dependendo do tipo de produção, a eletricidade representa até 70% do custo do produto.
Na construção civil, a energia correspondia a 14% do custo. Na fabricação de máquinas e equipamentos, representava 13%, chegando a 21,6% no caso de equipamentos elétricos. Com base nessas participações, o estudo calculou que 72% do aumento dos preços da construção civil nas duas últimas décadas veio da energia. Na produção de máquinas em geral, a parcela foi de 28%.
Comparação internacional
Entre 2000 e 2026, o preço da eletricidade pago pelos setores produtivos brasileiros, em dólares, subiu 327,7%. O aumento ficou 182,4 pontos percentuais acima do registrado nos Estados Unidos e 218,1 pontos acima do observado na União Europeia.
No gás natural, o preço da molécula aumentou 154,5% no Brasil, enquanto caiu 64% nos Estados Unidos. Em relação à União Europeia, a alta brasileira foi 48,1 pontos percentuais maior.
Daniela Coutinho, vice-presidente da Abrace Energia, afirmou que o encarecimento da energia reduz a competitividade da indústria e chega aos consumidores por meio de preços mais altos. “Persistir nessa política anti-industrial de energia significa comprometer a produção, o emprego e o desenvolvimento do país.”
O estudo também calculou o custo unitário da energia, que mede a despesa energética por unidade produzida. Entre 2000 e junho de 2026, o custo unitário da eletricidade para a indústria brasileira aumentou 1.593% em reais e 523,8% em dólares. No gás natural, a alta foi de 2.604% em reais e 896% em dólares.
No mesmo intervalo, os preços industriais subiram 613% no Brasil, ante 102% nos Estados Unidos e 45% na União Europeia. Para Garcia, o custo da energia se tornou um dos fatores associados à desindustrialização, especialmente nos setores eletrointensivos.


