O Brasil disputa investimentos em petróleo com países como Argentina, Guiana, Venezuela e nações africanas, e precisa acelerar decisões para ampliar sua produção, afirmou Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP). Para o executivo, o licenciamento ambiental é uma das áreas que exigem mais agilidade do próximo governo.
Ardenghy disse que o cenário internacional tornou o Brasil mais atrativo por causa da busca por segurança energética. O país está distante dos conflitos no Oriente Médio, tem produção crescente, estabilidade institucional, democracia, Judiciário, agência reguladora e tradição de cumprimento de contratos, segundo ele.
“Não estamos sozinhos nesse mundo, a gente disputa investimento com outros países”, afirmou. Na avaliação do presidente do IBP, o setor também precisa lidar com questões tributárias e com o imposto de exportação.
Produção, consumo e segurança energética
A feira ROG.e, realizada no Rio de Janeiro, reuniu 83 mil visitantes, 650 empresas expositoras e delegações de países como Noruega, França, Reino Unido, Estados Unidos, China e Canadá. Para Ardenghy, a participação demonstra o interesse internacional pela indústria brasileira.
Ele avalia que a demanda por petróleo poderá se estabilizar e depois diminuir, à medida que veículos elétricos ganhem espaço. Ainda assim, considera que haverá consumo por causa da mobilidade, da petroquímica e da produção de fertilizantes. Segundo o executivo, 80% do petróleo é destinado atualmente à mobilidade.
A produção de gás também foi associada à segurança alimentar. O Brasil depende de fertilizantes importados, e a ampliação da oferta interna de gás poderia aumentar a produção de amônia e ureia, utilizadas na agricultura.
Sobre a descoberta anunciada pela Petrobras na bacia da Foz do Amazonas, Ardenghy afirmou que ainda é necessário avaliar o reservatório, incluindo volume, pressão, porosidade, continuidade e qualidade do petróleo. Essas informações dependerão da perfuração de novos poços. A Petrobras pediu licença para mais três poços na região.
O presidente do IBP disse que, por volta de 2032 ou 2033, a produção brasileira deverá estar estabilizada, mas ainda haverá demanda por petróleo, especialmente nos setores químico e de fertilizantes. Ele citou uma projeção da Empresa de Pesquisa Energética segundo a qual o país poderia voltar a importar petróleo por volta de 2037 ou 2038.
Emissões e infraestrutura de gás
Ardenghy afirmou que a indústria de petróleo precisa reduzir suas emissões e que o Brasil já produz no pré-sal com intensidade inferior à média mundial. De acordo com ele, o setor brasileiro reduziu em 14% suas emissões nos últimos três anos, apesar do aumento da produção.
O executivo também defendeu a expansão da oferta de gás natural, mas ressaltou que o combustível depende de infraestrutura e preço. O gás do pré-sal é produzido a 180 km da costa e a 2.000 metros de profundidade, o que encarece os gasodutos. Um projeto desse tipo, disse, pode custar US$ 2,5 bilhões.
Ele comparou a infraestrutura brasileira, com 12 mil quilômetros de gasodutos, à dos Estados Unidos, que têm 600 mil quilômetros. Na avaliação de Ardenghy, a ampliação da rede é necessária para conectar produtores e consumidores.
O presidente do IBP também mencionou o fraturamento hidráulico como possibilidade para aumentar a oferta de gás e viabilizar a produção de fertilizantes próxima à Bacia do Parecis, no Mato Grosso. Ele afirmou que a tecnologia é controlada e negou haver literatura que comprove contaminação de lençóis freáticos nos países citados.
Combustíveis e efeitos do conflito
Sobre os impactos da guerra no Irã, Ardenghy disse que o Brasil está entre os países mais preparados por ser exportador líquido de petróleo e contar com um parque de refino que atende grande parte do consumo. Segundo ele, o mercado de combustíveis estaria abastecido até meados de outubro, mas depois poderia depender de novas importações.
O executivo afirmou que o governo gastaria R$ 40 bilhões até o fim do ano para manter o subsídio ao diesel e à gasolina, enquanto a arrecadação adicional com royalties e participações especiais estaria na faixa de R$ 45 bilhões. Por isso, criticou a adoção do imposto de exportação.
Ardenghy disse que ainda não há uma interrupção no abastecimento, mas classificou o cenário como de atenção. Para ele, a duração dos preços elevados do petróleo é difícil de prever porque depende da evolução do conflito no Oriente Médio.


