Na Itália, dois assassinatos cometidos em setembro marcaram um aumento repentino dos feminicídios durante o verão europeu. Em 3 de setembro, Lorena Isceri, 45, foi agredida, amarrada e colocada no porta-malas de um carro pelo ex-companheiro. Após dirigir por quase uma hora, o homem a retirou do veículo e a lançou viva de um viaduto de cerca de 30 metros, perto de Florença. Lorena morreu no local, e o homem se suicidou em seguida.
Menos de 20 dias antes, Tania Terrin, 39, havia sido estrangulada pelo ex-companheiro dentro de casa, na província de Veneza. Ela já tinha denunciado o homem à polícia por violência. Ele também se matou.
Alta concentrada em poucos meses
O observatório do grupo Non Una di Meno registrou 16 feminicídios em agosto e setembro. Em julho e agosto, foram seis. No acumulado do ano, o levantamento soma 56 vítimas, ante 84 em 2025. Desde 2020, quando o monitoramento começou, a entidade identifica uma queda nos feminicídios, embora o período mais recente tenha apresentado uma elevação.
Federica Rosin, responsável pelo observatório, classificou o resultado do último mês como um “pico feroz” de ocorrências. Para ela, o verão altera hábitos sociais e pode favorecer o aumento da violência de gênero, mas não explica sozinho a alta repentina. A causa central estaria nas relações de poder e na tentativa de controlar mulheres que encerraram relacionamentos.
Cristina Carelli, presidente da Donne in Rete Contro La Violenza, associação que reúne 120 centros e atende 25 mil mulheres por ano, também relacionou os dois casos à recusa dos homens em aceitar a autonomia das ex-companheiras. Para ela, existe uma alta significativa, mas não uma nova emergência: a violência contra a mulher é um problema estrutural da sociedade italiana.
Dificuldades na aplicação da lei
Os crimes ocorreram cerca de nove meses depois de o feminicídio ser incluído no código penal italiano. A lei foi aprovada por unanimidade no Parlamento e prevê prisão perpétua. Especialistas, porém, receberam a mudança com cautela, principalmente pela falta de preparo de profissionais do sistema de Justiça para reconhecer os elementos que caracterizam o crime.
A legislação define o feminicídio como a morte de uma mulher motivada por ódio, discriminação, abuso, controle, posse ou domínio em razão de ela ser mulher. Também inclui casos ligados à recusa de iniciar ou manter um relacionamento afetivo e à limitação da liberdade.
Termos como posse e controle ainda não têm interpretação consolidada no direito italiano. As especialistas temem que isso provoque decisões diferentes, debates sobre o comportamento da vítima e a classificação incorreta das mortes. A lei prevê cursos para integrantes da magistratura, mas Carelli afirma não haver evidências de que eles estejam sendo realizados.
A divergência também aparece nas estatísticas. O governo contabilizou oito feminicídios no primeiro semestre deste ano, na primeira contagem feita desde a inclusão do crime no código penal. O observatório da Non Una di Meno registrou 34 casos no mesmo período.
Prevenção e educação
Para Rosin, a nova lei não reduziu a violência de gênero nem os feminicídios. Ela defende educação desde a primeira infância para combater relações baseadas em força e desigualdade. As especialistas também apoiam a educação sexual e afetiva como medida de prevenção e mudança cultural.
Em junho, contudo, entrou em vigor uma lei de iniciativa do governo que exige autorização dos genitores para a participação de adolescentes em aulas desse tipo. O ministro Giuseppe Valditara, da Liga, afirmou que a medida protege os alunos da “confusão da propaganda de gênero”.
Carelli, que trabalha há mais de 25 anos com violência contra a mulher, disse que a procura por esse tipo de formação existe entre adultos preocupados com filhos e alunos. Para ela, instituições públicas deveriam responder a essa demanda e enfrentar preconceitos e estereótipos associados a modelos de gênero patriarcais.


