FORTALEZA — Ana Clara Antero de Oliveira, de 21 anos, fará uma nova cirurgia para recuperar o movimento de pinça das mãos, depois de quase quatro meses de tratamento e fisioterapia. A jovem teve uma mão decepada e a outra parcialmente mutilada em uma tentativa de feminicídio ocorrida em Quixeramobim, no interior do Ceará, no dia 1º de maio.
Após o crime, Ana Clara ficou quase um mês internada no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, onde passou pelo reimplante das duas mãos. Os suspeitos, o ex-namorado Ronivaldo Rocha dos Santos e o irmão dele, Evangelista Rocha dos Santos, foram presos e se tornaram réus por tentativa de feminicídio.
A nova cirurgia deverá liberar os tendões e melhorar a coordenação motora. A jovem já consegue segurar objetos leves, alimentar-se sozinha na maior parte do tempo e usar o celular para se comunicar com familiares e amigos. Ainda precisa de ajuda para se vestir e tomar banho.
“A recuperação das mãos também está indo muito bem”, afirmou Ana Clara. Ela explicou que o procedimento faz parte de um processo lento, acompanhado por fisioterapia.
Recomeço e atuação contra a violência
Ana Clara passou a morar em Fortaleza com a família para facilitar o deslocamento ao hospital e a continuidade do tratamento. Ela pretende permanecer na capital, onde recebeu uma bolsa de estudos para cursar Direito. O objetivo é se tornar advogada voluntária e ajudar mulheres que não têm condições de pagar por um profissional.
No mês de agosto, a jovem participou de eventos e palestras em cerca de 15 cidades. Nessas ocasiões, compartilha a própria história e orienta o público sobre a importância de proteger mulheres e denunciar possíveis agressores.
Ana Clara também passou a falar sobre o ciclo da violência, conceito formulado pela psicóloga norte-americana Lenore Walker. Ela afirma que sinais de controle, como críticas às roupas, restrições ao contato com a família e tentativas de impedir os estudos, podem aparecer antes da agressão física.
“Eu passei por isso e achava que era amor, mas a gente precisa entender que isso não é amor, não é cuidado”, disse.
Estudos, fé e autoestima
A jovem afirma que a fé tem sido uma fonte de força e não descarta fazer terapia. Também retomou cuidados com os cabelos, a pele e as roupas, além de manter acompanhamento com dentista. Para ela, recuperar a autoestima faz parte da nova fase.
Ana Clara diz que o crime não define sua identidade. Ao lado da família e de novos amigos, afirma estar vivendo uma etapa de recomeço e mantém planos de estudar, trabalhar pela defesa das mulheres e construir uma família.


