O presidente argentino Javier Milei avançou em um plano de rearmamento militar com apoio político e autorização dos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump. A iniciativa inclui a compra de caças, blindados, helicópteros, munições e sistemas de apoio, embora não esteja claro qual ameaça justificaria a expansão.
A Argentina adquiriu 24 caças americanos F-16 usados da Dinamarca por US$ 300 milhões ao longo de cinco anos. O segundo lote, com seis aviões, deve chegar em breve. A operação foi fechada com um país europeu, mas dependia de autorização americana para a reexportação de material de defesa. Trump poderia ter revisto uma autorização concedida pelo antecessor, Joe Biden, mas não o fez.
A compra não transforma a Argentina em potência militar, mas recompõe uma Força Aérea que não estava operacional. Além dos aviões, Buenos Aires comprou dos Estados Unidos um pacote de até US$ 940 milhões em armamentos e sistemas de apoio. O pagamento é uma incógnita diante da crise econômica enfrentada pelo país.
Blindados, helicópteros e defesa terrestre
O Exército argentino negociou no ano passado a compra direta de oito blindados sobre rodas Stryker. Em agosto, assinou um acordo para mais 235 unidades, sem divulgar o custo. O volume supera o da frota de 231 tanques TAM (Tanque Argentino Médio), que também passa por modernização.
Neste mês, a Argentina comprou ainda quatro helicópteros Black Hawk por US$ 140 milhões. A previsão é que novas aeronaves sejam incorporadas caso o processo de remilitarização conduzido por Milei continue.
O governo também colocou no Orçamento de 2027 autorização para iniciar a compra de mais duas fragatas e três submarinos. O fornecedor previsto é o Naval Group, da França. A escolha alimenta a hipótese de que os submarinos sejam fabricados nos estaleiros que produziram quatro modelos Scorpène de propulsão convencional para o Brasil. Esse processo terminou em 2025.
Malvinas e aproximação com Trump
O apoio de Trump a Milei inclui a revisão da posição americana sobre a soberania britânica das ilhas Falkland, chamadas de Malvinas na Argentina. O tema tem forte capacidade de mobilização no país e remete à guerra de 1982, quando a ditadura argentina ocupou brevemente o arquipélago antes de ser expulsa.
Milei elevou o tom da reivindicação em discurso na ONU, anunciou uma nova base naval e propôs penas para quem explorar petróleo nas proximidades das ilhas. Trump, por sua vez, usa o tema para pressionar o Reino Unido a elevar os gastos com defesa.
A aproximação entre os dois governos também aparece na participação argentina na iniciativa Escudo das Américas, criada por Trump para tratar de segurança. O grupo declarou o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas no mesmo dia em que o presidente americano ameaçou novas ações militares na região.
A desaprovação de Milei estava em 58%, conforme pesquisa de agosto. O apoio de Trump à reivindicação sobre as Malvinas ocorreu no contexto da tentativa do argentino de buscar a reeleição em 2027.
Gasto militar e limites da expansão
Dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos indicam que a Argentina gastou em 2025 0,5% do PIB, ou US$ 3,7 bilhões, em defesa, incluindo aposentados. O país aparece em 46º lugar no ranking global e em 5º na América Latina.
O gasto proporcional argentino equivale à metade do que a Otan recomendava até o ano passado. A aliança passou a projetar uma meta de 5% em dez anos. No Brasil, a parcela do PIB destinada à defesa é o dobro da argentina, e o valor nominal é sete vezes maior.
A maior proporção histórica de gasto militar argentino, em série do Banco Mundial iniciada em 1960, ocorreu em 1978, quando o setor recebeu 4,72% do PIB. Desde 2004, a despesa não supera 1% do PIB.
A Marinha argentina tem atualmente três fragatas, em condições desconhecidas, e dois submarinos parados. Nas ilhas Malvinas, há quatro caças Eurofighter Typhoon. A distância entre as capacidades militares ajuda a explicar os limites do rearmamento, que ainda depende da disponibilidade de recursos.
Trump já havia aprovado, em 2025, um pacote de ajuda de US$ 20 bilhões para a Argentina. O auxílio foi considerado central para a vitória eleitoral de Milei e de seus aliados nas eleições legislativas de outubro.


