SÃO PAULO — A distância entre o desempenho escolar esperado e a realidade de alunos da rede pública aparece na rotina de Kauê, 10, e Kalleb, 9, estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental. Kauê acumula medalhas em matemática, xadrez e mancala, mas enfrenta dificuldades para escrever. Kalleb tropeça na leitura de frases simples e tem problemas para registrar palavras.
A alfabetização na idade adequada foi apontada por seis autoridades em educação como o principal gargalo a ser enfrentado pelo próximo presidente da República. As estratégias indicadas incluem atenção à primeira infância, reforço nos anos finais do ensino, ampliação das escolas de tempo integral, formação presencial e prática para professores e critérios técnicos para a escolha de gestores escolares.
Diferenças entre os programas
Os planos dos dois líderes nas pesquisas de intenção de voto apresentam propostas relacionadas a parte dessas prioridades, mas também deixam lacunas. O programa de Lula (PT) não detalha medidas para assegurar nomeações de gestores com base no mérito nem como enfrentar a predominância da formação de professores por Ensino a Distância.
Flávio Bolsonaro (PL) propõe ampliar as escolas cívico-militares e defende o papel das famílias na formação de valores. Essas pautas foram classificadas como sem respaldo técnico e com viés doutrinário pelas avaliações apresentadas, enquanto medidas ligadas às práticas pedagógicas reconhecidas ficam fora do foco.
Investimento e primeiros anos
Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP, afirma que o país ampliou os investimentos em educação sem obter avanço proporcional no desempenho. De 2005 a 2025, o gasto por aluno da educação básica subiu 4,5 vezes, de R$ 3.450 para R$ 15.581, em valores atualizados em 2024. No mesmo período, a nota média da rede pública nos anos finais do Ensino Fundamental cresceu 20%.
Para o pesquisador, parte da ineficiência está nas condições anteriores à entrada da criança na escola. Entre os problemas estão a falta de creches, assistência social e psicológica e saneamento básico. As notas dos alunos do Ensino Médio aumentaram apenas 12% de 2005 a 2025, segundo os dados apresentados por ele.
Defasagem e jornada escolar
Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, afirma que estudantes com dificuldades no ciclo inicial podem chegar ao 9º ano sem dominar competências esperadas para o 5º ano. Katia Smole, diretora-executiva do Instituto Reúna, defende uma política nacional de transição do 5º para o 6º ano, período em que crescem as reprovações e o desengajamento.
A ampliação do tempo na escola também é apontada como medida de recuperação. No Pisa de 2025, o Brasil ficou na 52ª posição em leitura, na 67ª em ciências e na 71ª em matemática, em um ranking com 91 países e territórios. Claudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, compara a jornada média de quatro horas do Ensino Fundamental 2 com as sete a nove horas dos 40 primeiros colocados.
Na escola frequentada por Kauê e Kalleb, faltou água durante a visita. As tubulações haviam sido depredadas, e o portão defeituoso permitiu a entrada de vândalos durante a madrugada. Kalleb relata falta de materiais de apoio e de atendimento individual para transformar frases impressas em letras cursivas. A turma tem 40 alunos.
Formação de professores
Claudia afirma que oito em cada dez professores são formados por EAD em universidades privadas e que mesmo os graduados em universidades federais recebem preparação excessivamente teórica. Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da USP, sugere estágios orientados para aproximar a formação da prática, acompanhados de melhorias estruturais e salariais.


