A falta de especialistas e a demora nos reembolsos estão entre as principais reclamações de funcionários da Caixa Econômica Federal sobre o Saúde Caixa. Os relatos também incluem cobranças por materiais não utilizados, valores considerados elevados e dificuldades para obter informações sobre os gastos do plano.
O tema está no centro da greve nacional dos bancários, iniciada em 10 de setembro. A negociação foi encaminhada ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), que julgará o dissídio coletivo nesta terça-feira (29).
Rede credenciada e reembolsos
Matheus Crespo, técnico bancário de 45 anos, vive em Natal (RN) e afirma que enfrentou dificuldades para conseguir atendimento especializado. Após uma lesão provocada por atividades físicas no início de 2026, ele passou por exames e sessões de fisioterapia. Durante alguns meses, seu gasto com o plano dobrou.
Crespo diz que a rede credenciada não atende adequadamente à demanda. Segundo ele, Natal ficou sem especialista em cirurgia cardíaca, enquanto o Rio Grande do Norte passou cerca de três anos sem urologista credenciado. A situação, afirma, foi resolvida no ano passado. Funcionários que vivem no interior precisam viajar até a capital ou para outros estados para obter atendimento considerado básico.
Quando não há profissionais credenciados, o trabalhador pode buscar atendimento fora da rede, pagar a consulta e depois pedir o reembolso de parte da despesa. Crespo afirma que o procedimento é burocrático, demora e exige que o funcionário tenha dinheiro disponível antes do atendimento.
Frederico Cruz dos Santos, caixa de uma agência de Bauru (SP) e diretor do sindicato local, afirma que os reembolsos ficam abaixo do valor pago pelos funcionários. Ele cita o caso de uma consulta de R$ 500, para a qual a Caixa reembolsaria R$ 50. Também relata que, na rede credenciada do interior paulista, há consultas com espera de três meses.
Cobranças contestadas
Santos afirma que funcionários encontram dificuldades para acompanhar as cobranças e obter respostas a pedidos de reembolso feitos pelo site. Ele também menciona relatos de faturas com materiais que não teriam sido usados durante o atendimento, como caixas inteiras de agulhas, luvas e seringas após a aplicação de uma injeção.
Júlia Eberhardt, bancária no Rio de Janeiro (RJ), relata casos de cobrança por procedimentos e materiais não utilizados. Entre os exemplos citados por ela estão duas ou três internações registradas para um paciente e a cobrança de dois rolos de esparadrapo por mais de R$ 100 após um atendimento com soro.
Documentos e relatos apresentados por funcionários registram outros valores contestados. Em um caso, o Saúde Caixa foi cobrado em quase R$ 633,30 por esparadrapo usado em um curativo simples. A cobrança foi questionada e revertida.
Em outro episódio, uma tomografia custava R$ 705,42, mas a guia incluía R$ 1.913,75 em materiais e R$ 877,45 em medicação. O total chegou a R$ 3.496,62. Depois de questionar o lançamento, a funcionária pediu um novo documento apenas com o valor do exame.
Os bancários também questionam uma 13ª mensalidade, cobrada uma vez por ano além das parcelas regulares. A cobrança foi prevista em acordo coletivo fechado em 2023 e começou em 2024. Na ocasião, a Caixa afirmou que a medida era necessária para cobrir o déficit do plano.
Resposta da Caixa
A Caixa afirma que apura todas as denúncias recebidas. O banco diz que os valores cobrados por hospitais e médicos credenciados ficam disponíveis aos titulares no aplicativo Saúde Caixa e no portal do plano, que também apresentam os dados de coparticipação de cada atendimento.
A instituição informa que denúncias sobre erros ou falta de transparência passam por análise técnica especializada. O objetivo, segundo a Caixa, é verificar se os valores são compatíveis com o tratamento prestado e com as condições contratuais vigentes.
O banco também afirma que fornece trimestralmente às entidades representativas dos empregados os dados detalhados do plano, conforme o acordo coletivo de trabalho. A Caixa mantém ainda um conselho formado por funcionários com possibilidade de auditar os gastos e publica balanços mensais com a discriminação das despesas.
Eberhardt considera essas informações insuficientes. Ela afirma que a Caixa desmontou a área interna responsável por auditar os gastos do plano. Santos defende que os trabalhadores negociem uma auditoria externa independente sobre as contas do Saúde Caixa.


