Experimentos conduzidos pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp indicaram que intoxicações por álcool durante a adolescência podem alterar comportamentos observados na vida adulta. Os camundongos avaliados passaram a assumir mais riscos ou a consumir mais bebida, dependendo do sexo e do momento da exposição.
O estudo recebeu apoio da Fapesp e deu origem a dois artigos, publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior. Para simular episódios de consumo excessivo, os pesquisadores aplicaram injeções de álcool nos animais durante diferentes fases da adolescência.
Resultados variaram conforme a fase e o sexo
Nos camundongos expostos no início da adolescência, os machos apresentaram comportamentos de risco mais intensos na vida adulta. Nas fêmeas, esse efeito não foi observado. Quando tiveram acesso ao álcool já adultas, porém, elas beberam mais se haviam sido expostas à substância no começo da adolescência.
Na exposição realizada no fim da adolescência, machos e fêmeas demonstraram maior comportamento de risco posteriormente. Para Karina Possa Abrahão, professora adjunta do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, os resultados indicam prejuízo no amadurecimento cerebral.
A pesquisadora afirma que o córtex pré-frontal, região relacionada à tomada de decisões e ao controle dos impulsos, tem atividade menor durante essa fase. Em humanos, áreas ligadas à tomada de decisão só completam seu desenvolvimento por volta dos 25 anos de idade.
A adolescência dos camundongos dura cerca de três a quatro semanas, do período logo após o desmame — entre o 21º e o 28º dia — até aproximadamente o 60º dia de vida. Cada animal recebeu quatro injeções. Segundo Abrahão, a proporção corresponderia, em uma pessoa, a mais ou menos duas intoxicações por mês durante toda a adolescência.
Consumo entre adolescentes
Embora o consumo de álcool seja proibido no Brasil para menores de 18 anos, 5% dos adolescentes entre 12 e 17 anos tiveram ao menos um episódio de consumo excessivo em 30 dias, conforme o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Entre jovens adultos de 18 a 24 anos, o índice foi de 20,5%.
Abrahão explica que o cérebro ainda não está totalmente desenvolvido nessas idades e, por isso, fica mais vulnerável ao álcool. Ela também afirma que os efeitos podem alcançar o início da vida adulta. Em camundongos com idade equivalente à de um humano de 20 anos, o grupo encontrou resultados semelhantes aos observados nos adolescentes.
Em adultos mais velhos, os impactos tendem a ser menores, embora possam incluir prejuízos cognitivos. A pesquisadora afirma que a literatura indica uma redução do impacto conforme o cérebro amadurece.
Os artigos são Alcohol or stress exposure during late adolescence impairs risk assessment later in life, disrupting the ethological structure of behavior in mice e Repeated early-adolescent ethanol intoxication promotes riskier decision-making in adult male mice and increases drinking in adult female mice.


