Restaurantes dos Estados Unidos estão revendo porções e cardápios diante do aumento no uso de medicamentos da classe GLP-1, como Wegovy, Ozempic e Zepbound. Os consumidores que utilizam essas canetas emagrecedoras têm comido fora com menos frequência e gastado menos quando vão a restaurantes.
O movimento já alterou a rotina de estabelecimentos. Há seis meses, Deborah VanTrece, chef e proprietária do Twisted Soul Cookhouse & Pours, em Atlanta, percebeu que as embalagens para levar sobras estavam acabando. Segundo ela, os clientes deixavam metade dos pratos, e muitos diziam que isso ocorria por causa das injeções.
Cerca de 11% dos adultos americanos, ou aproximadamente 30 milhões de pessoas, usam medicamentos desse tipo. A expectativa é de crescimento desse grupo. Como os GLP-1 podem reduzir a massa muscular, os consumidores também procuram mais proteínas, o que levou restaurantes a avaliar porções menores e alternativas com maior quantidade desse nutriente.
A adaptação, porém, envolve custos. Os preços da carne bovina permanecem em níveis recordes, e os restaurantes precisam decidir se os clientes aceitariam pagar US$ 5 (R$ 24,91) ou US$ 7 (R$ 34,92) a mais por alguns gramas extras de frango ou carne bovina. Mesmo uma porção menor não necessariamente pode ser vendida pela metade do preço, porque os estabelecimentos continuam arcando com aluguel, salários e alimentos.
Darren Tristano, presidente-executivo da Foodservice Results, afirmou que uma porção com metade do tamanho provavelmente custaria 75% do preço da porção inteira. A avaliação ocorre em um setor pressionado por outros fatores: os ganhos médios por hora dos funcionários e os preços dos alimentos no atacado subiram mais de 35% desde o início de 2020. No primeiro semestre deste ano, um terço dos restaurantes disse ter operado no prejuízo, segundo pesquisa da Associação Nacional de Restaurantes dos Estados Unidos.
Redes testam novas opções
As redes de fast-food enfrentam dificuldade adicional porque hambúrgueres e frituras, ricos em calorias, não correspondem ao que buscam muitos consumidores que usam GLP-1. O McDonald's, que registrou desaceleração nas visitas neste ano, testou uma salada com tiras de frango McCrispy e um wrap de frango grelhado em um encontro com investidores em Chicago.
Chris Kempczinski, presidente-executivo da empresa, disse que ainda não está claro se os itens serão incorporados ao cardápio. Em entrevista no mês passado, ele afirmou que a rede não havia percebido efeitos dos medicamentos sobre o comportamento dos consumidores. A Restaurant Brands International, proprietária do Burger King, incluiu as canetas entre os riscos para os negócios em documentos financeiros apresentados neste ano. A rede testa porções menores, como os Whopper Bites, mas informou que elas não foram criadas especificamente para usuários de GLP-1.
A Shake Shack lançou, no fim do ano passado, o cardápio Good Fit, com hambúrgueres e frango, em sua maioria sem pão, e destaque para a quantidade de proteína. A versão do SmokeShack servida em folha de alface custa o mesmo que a opção com pão.
Pratos menores e combinações
Neil Doherty, chefe global de estratégia culinária da Sysco, defendeu o uso de ingredientes mais baratos, como lentilhas, ovos e queijo cottage, para elevar a oferta de proteína. Entre as alternativas está trocar um filé-mignon de 225 gramas por um filé de 115 gramas acompanhado de camarões.
No Tucci, restaurante italiano de Nova York, Dennis Turcinovic começou há cerca de um ano e meio a notar que alguns pratos eram devolvidos com pouca comida consumida. O estabelecimento passou a oferecer versões menores. A entrada tradicional com três bolinhos de arancini e caviar, vendida por US$ 34 (R$ 169,63), ganhou uma opção com um bolinho por US$ 12 (R$ 59,87).
Turcinovic disse que a redução geral das porções poderia desagradar clientes que não usam as canetas emagrecedoras. Para os restaurantes, o desafio é ajustar a oferta sem comprometer a rentabilidade em um setor que também enfrenta despesas maiores desde a pandemia de Covid-19.


