A insatisfação com os serviços públicos e com o funcionamento das instituições convive, na América Latina, com a permanência do apoio à democracia e à capacidade das eleições de produzir mudanças. É o que mostra a pesquisa mais recente do Latinobarómetro, realizada em 17 países.
Apenas 15% dos entrevistados consideram boa a situação econômica de seus países. A satisfação é de 28% em relação aos hospitais públicos e de 30% no caso da polícia. Os parlamentos têm avaliação especialmente baixa: só 22% dizem sentir-se representados por essas instituições.
Mesmo assim, 55% afirmam que a democracia não pode funcionar sem partidos políticos, ante 44% em 2023. Metade dos entrevistados continua apoiando a democracia, apesar da popularidade de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. A pesquisa aponta que ele permanece como a figura mais admirada da região.
Mudança na avaliação das potências
A percepção sobre os Estados Unidos piorou desde a volta de Donald Trump à Casa Branca. A opinião favorável ao país caiu de 73% em 2024 para 63%. Os Estados Unidos ainda são mais bem avaliados em termos gerais do que a China, mas a influência chinesa passou a receber avaliação positiva de 65% dos entrevistados, contra 57% para a influência americana.
Nos 20 meses desde o retorno de Trump, candidatos de direita venceram as sete eleições presidenciais realizadas na América Latina. Muitos adotaram discursos semelhantes aos do presidente americano, com críticas à imprensa e ao chamado “marxismo cultural”.
A postura de Trump também aparece na avaliação sobre a Venezuela. Embora 69% aprovem a captura de Nicolás Maduro, organizada por Trump em janeiro, apenas 35% acreditam que uma intervenção americana beneficiaria o país. Quase dois terços desaprovam a condução das relações internacionais pelo presidente americano; entre os venezuelanos, porém, 61% aprovam sua atuação.
Segurança e expectativas econômicas
A busca por respostas para a violência ajuda a explicar a força da direita. Bukele reduziu a taxa de homicídios de El Salvador com a prisão de grande número de jovens sem julgamento e ampliou o controle sobre instituições democráticas. Candidatos como Abelardo de la Espriella, presidente da Colômbia, prometem medidas semelhantes contra o crime.
A economia continua sendo a principal preocupação, mas a segurança pública ocupa o primeiro lugar em sete países, sobretudo no Equador. Dois terços se opõem ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à legalização do aborto. Argentina, Chile e Uruguai são exceções: nesses países, a maioria apoia ambos.
A relação da população com o Estado também é marcada por baixa expectativa. Questionados sobre o que o Estado havia feito por eles nos três anos anteriores, 73% responderam “pouco ou nada”, ante 63% em 2011. Apenas 28% dizem contribuir para a previdência social.
As redes sociais se tornaram a principal fonte de informação política, à frente da televisão, do rádio e dos jornais. Mais de 70% consideram que elas não retratam bem “o que a maioria das pessoas pensa”.
Apesar desse cenário, 52% acreditam que sua própria situação econômica melhorará no próximo ano, o maior percentual desde o início da série, em 1995. Para a economia do país, a expectativa positiva é de 36%. Um quarto afirma já ter pensado em emigrar, ante 30% em 2023.


