SÃO PAULO — A dificuldade para dormir, a irritabilidade, a perda de concentração e a necessidade de verificar notícias repetidamente estão entre os sinais de que a ansiedade relacionada às eleições pode ter ultrapassado uma preocupação comum. Psicólogas ouvidas sobre o tema recomendam estabelecer limites para o consumo de informação e preservar atividades fora do ambiente político.
A orientação não é abandonar o acompanhamento da eleição. Natália Aguilar, especialista em Gestalt-terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae, afirma que é possível se informar, avaliar propostas, participar politicamente e votar sem acompanhar as notícias durante todo o dia. Para ela, o organismo não foi feito para permanecer em alerta constante.
Aguilar recomenda escolher fontes confiáveis, definir horários para buscar informações e evitar a checagem contínua das redes sociais. Também orienta manter o sono, a atividade física, o trabalho, o lazer e a convivência com familiares e amigos fora das discussões políticas.
Limites nas conversas e nas redes
A psicóloga Carla Slongo, conselheira do CRP-PR, considera a autopreservação uma forma de estabelecer limites em conversas com familiares e amigos. Ela afirma que o eleitor pode interromper uma discussão que provoque reações intensas sem deixar de expressar sua posição.
A exposição frequente a notícias, pesquisas eleitorais e publicações nas redes sociais se soma, em alguns casos, a conflitos familiares e ao medo de uma eventual vitória do candidato adversário. Ingrid Battisti, 32, voltou para Campo Grande (MS) depois de passar um período em São Paulo e voltou a conviver com opiniões políticas divergentes de pessoas conhecidas desde a infância.
Ela afirma que as pessoas ficam mais reativas com a aproximação das eleições. Em 2018, acompanhava intensamente o Twitter e o Instagram. Em 2022, deixou o Twitter depois de perceber que a plataforma estava lhe fazendo mal. Hoje, seleciona melhor as fontes e os horários em que busca informação.
Medo e excesso de estímulos
Marcelo Vitorino, professor e consultor de marketing político há 30 anos, afirma que as campanhas constroem cenários de caos ou de consequências graves para mobilizar o eleitor. Segundo ele, as estratégias eleitorais podem trabalhar com inspiração, esperança, resgate, continuidade, ruptura e medo.
Vitorino associa a Flávio Bolsonaro (PL) uma estratégia de resgate e a Lula (PT) uma estratégia de continuidade. Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), segundo o consultor, apostam na ruptura. Em todas essas abordagens, afirma, há elementos de medo, sobretudo nas redes sociais.
A circulação de mensagens também mudou. Antes, as informações sobre candidatos chegavam em momentos mais delimitados, principalmente pela propaganda eleitoral nos meios tradicionais. Hoje, uma publicação pode chegar diretamente ao celular do eleitor e ser compartilhada em grupos e outras plataformas em poucos minutos.
O que não depende do eleitor
Para a psicóloga comportamental Leticia de Oliveira, parte do estresse vem da sensação de falta de controle diante de um resultado capaz de afetar o futuro de todos, mas que não depende somente da escolha individual. A incerteza pode despertar medo, raiva e impotência, sentimentos alimentados pelo excesso de informações.
Esse impacto pode ser maior entre pessoas mais vulneráveis emocionalmente, frustradas ou lidando com questões mal resolvidas. Nesses casos, a tendência de entrar em discussões políticas pode aumentar.
Uma pesquisa conduzida por universidades americanas avaliou 500 mil adultos durante as eleições de 2016 nos Estados Unidos. Publicado em outubro de 2020 no Journal of General Internal Medicine, o trabalho alertou que o processo de escolha de um representante pode afetar a saúde mental pública.
Outro levantamento citado no estudo apontou que 81% dos adultos nos EUA disseram, em 2020, que o futuro político do país era uma fonte significativa de estresse. Em janeiro de 2017, o índice havia sido de 66%.
A ansiedade merece atenção quando começa a comprometer a rotina. Além dos problemas de sono, irritabilidade e dificuldade de concentração, Aguilar cita a sensação permanente de ameaça, os conflitos com familiares ou amigos por divergências políticas e a dificuldade de se desligar do assunto durante os períodos de descanso.
Para a psicóloga, reconhecer os limites do controle individual pode ajudar a lidar com a imprevisibilidade do resultado eleitoral e com a tentativa de antecipar o futuro.


