A oferta do cabotegravir pelo Sistema Único de Saúde ainda depende da conclusão do processo de incorporação e da definição das regras de implementação. O medicamento, aplicado no músculo a cada dois meses, recebeu recomendação preliminar favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) no início de agosto e passou por consulta pública.
A previsão é que o Apretude, nome comercial do remédio desenvolvido pela GSK/Viiv, não seja disponibilizado imediatamente em todo o país. A quantidade inicial poderá ser pequena, restrita a algumas cidades e direcionada a pessoas com dificuldades para manter o uso diário da PrEP oral, segundo um servidor ligado ao Ministério da Saúde.
O ministério e a farmacêutica não confirmaram a informação nem informaram uma data específica para a chegada do cabotegravir à rede pública. Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que avalia oferecer a versão de longa duração como alternativa para pessoas que enfrentam dificuldades com a medicação diária. A GSK informou que os termos do acordo de disponibilização estão sendo finalizados e classificou a análise da Conitec como um “passo importante para a prevenção do HIV no país”.
Público e apresentação
A indicação aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é ampla. O pedido inicial apresentado à Conitec previa homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero de 15 a 30 anos, com pelo menos 35 kg.
Durante a avaliação, a comissão ampliou a população considerada para pessoas sexualmente ativas, a partir de 15 anos, em contextos de maior vulnerabilidade ao HIV. A definição final de quem terá prioridade ainda não foi concluída. A apresentação analisada para o SUS contém 600 mg do medicamento em 3 mL.
O cabotegravir é um antirretroviral que inibe a integrase, enzima produzida pelo retrovírus do HIV. Com isso, impede que o vírus se instale nas células e se multiplique. O esquema prevê duas doses iniciais, com intervalo de um mês, seguidas por uma aplicação a cada dois meses. A PrEP oral atualmente oferecida pelo SUS é tomada diariamente.
Adesão ao tratamento
O infectologista Vinicius Borges afirma que a forma injetável pode atender pessoas que esquecem comprimidos, têm dificuldade para manter uma rotina ou não querem guardar um frasco de PrEP em casa por causa do estigma relacionado ao HIV. “Quanto mais opções a gente oferece, maior a chance de se encaixar na vida das pessoas”, disse.
Dados do Ministério da Saúde mostram que 55% dos usuários interromperam o uso da PrEP oral. Entre menores de 18 anos, a taxa chega a 68%. Borges também considera o cabotegravir uma alternativa para pessoas que não se adaptaram à PrEP oral por questões relacionadas à função renal.
Segundo o infectologista, a reação mais comum é no local da aplicação, com dor, sensibilidade, inchaço ou formação de nódulo. Esses efeitos tendem a ser leves ou moderados e desaparecem com o tempo. Dor de cabeça e mal-estar também podem ocorrer.
O medicamento foi aprovado pela Anvisa em 2023 e é vendido em farmácias e aplicado em clínicas médicas por R$ 4.000 a dose. No SUS, estão disponíveis estratégias como camisinha, PrEP oral diária e PEP, que deve ser tomada em até 72 horas após uma relação desprotegida. Antes do início da PrEP oral ou injetável, é necessário confirmar que a pessoa não tem HIV.
Em julho, o governo anunciou um acordo de compra do cabotegravir. Na ocasião, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou que esperava ter o medicamento disponível para pacientes brasileiros ainda neste ano. Segundo ele, o país registrou em 2024 a maior redução de sua história na taxa de mortalidade por Aids, com menos de 10 mil mortes pela primeira vez. Padilha atribuiu o resultado à ampliação de 150% na oferta de medicamentos de PrEP e ao aumento de 100% nos exames de testagem rápida nos últimos três anos.


