SÃO PAULO — A possibilidade de escolher entre comprimidos e injeções foi associada a maior adesão à prevenção do HIV em um estudo da Fiocruz. Entre os participantes que optaram pela PrEP injetável com cabotegravir, a proteção foi registrada em 91% do período acompanhado. Na versão oral, o índice foi de 47%, acima dos 35% observados na rotina do SUS.
A pesquisa foi publicada nesta quinta-feira (24) na revista Lancet e acompanhou 1.447 usuários do sistema público. O trabalho foi realizado em seis serviços do SUS, em Campinas, Florianópolis, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, entre outubro de 2023 e o mesmo mês de 2025.
Diferença na incidência
A taxa de novas infecções também foi menor entre os usuários da versão injetável. Em uma simulação com mil pessoas acompanhadas durante um ano, seriam esperados dois novos casos entre os que recebessem a injeção. No grupo da prevenção oral, ocorreriam cerca de nove; na rotina padrão do SUS, 15.
A pesquisadora principal, Beatriz Grinsztejn, infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, afirma que os resultados não determinam que a forma injetável seja necessariamente mais eficaz. Para ela, as duas opções são altamente eficazes, e a melhor alternativa é aquela que a pessoa consegue seguir.
“Empoderar o paciente é a forma mais eficaz de prevenir o HIV”, disse Beatriz.
A PrEP oral combina tenofovir disoproxil fumarato e emtricitabina em um comprimido de uso diário. O esquecimento pode deixar o usuário exposto. Já o cabotegravir exige uma aplicação inicial, outra após um mês e, depois, novas doses a cada dois meses.
Perfil e preferências
Dos participantes, 83%, ou 1.201 pessoas, escolheram a injeção. A opção oral foi adotada por 17%, ou 246 pessoas. O grupo era formado por homens cisgêneros, homens e mulheres transgênero, pessoas não binárias e queer, com idades entre 18 e 30 anos, resultado negativo para HIV e sem uso anterior de PrEP.
Entre os que escolheram a aplicação, 78% relataram dificuldade para tomar o comprimido diariamente. Na escolha da versão oral, os principais motivos foram aversão às injeções, citada por 46%, e a crença de que seria mais fácil lembrar do comprimido, apontada por 34%.
Beatriz ressaltou que a injeção deve ampliar as alternativas, e não substituir a prevenção oral. O artigo defende que os serviços ofereçam as opções disponíveis e promovam a escolha pelo paciente.
Incorporação ao SUS
O Ministério da Saúde anunciou em julho um acordo de compra do cabotegravir, desenvolvido pela ViiV Healthcare, empresa majoritariamente controlada pela GSK. A Anvisa aprovou o medicamento em 2023, e a comercialização no mercado privado começou em agosto de 2025.
A incorporação ao SUS ainda é analisada pela Conitec. Não há previsão de quando o medicamento será disponibilizado. Em janeiro, a Anvisa também aprovou o lenacapavir, outra forma injetável de prevenção, com aplicação a cada seis meses e valores ainda desconhecidos.


