A eleição presidencial brasileira passou a ser acompanhada internacionalmente por causa da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, das dificuldades econômicas do país e do possível papel de Donald Trump no pleito. Nos últimos dois dias, o presidente dos Estados Unidos afirmou que acompanha a votação de perto e a classificou como importante, sem declarar apoio a nenhum dos candidatos.
Na Casa Branca, Trump disse: “O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante”. A possibilidade de influência americana aparece nas análises de jornais e revistas dos Estados Unidos e da Europa.
A influência dos Estados Unidos
O The New York Times concentrou sua análise no chamado fator Trump e questionou até que ponto o presidente americano tentará interferir na disputa. O jornal afirmou que o Brasil vem adotando medidas para proteger o processo eleitoral, incluindo o monitoramento de lobby estrangeiro e de desinformação, o combate a alegações falsas de fraude e a busca de apoio de países da Europa, da Ásia e de outras regiões.
A publicação também avaliou que a eleição tem importância estratégica para os Estados Unidos. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, segundo a análise, aproximaria Brasília de Washington em assuntos como segurança e minerais estratégicos. Lula, por outro lado, manteria uma postura mais independente e crítica a Trump.
O The Guardian tratou a eleição como uma decisão de longo alcance para o Brasil. O jornal observou que Flávio se apresenta como uma versão menos agressiva e menos temperamental do pai, mas preserva posições radicais. Sobre Lula, apontou o desgaste associado à desaceleração econômica, à criminalidade e aos efeitos políticos do escândalo do Banco Master.
Para o jornal britânico, uma vitória de Flávio ampliaria a força de Trump e de Marco Rubio na chamada Doutrina Donroe, associada a uma presença americana maior na América Latina. O editorial também relacionou o resultado brasileiro a possíveis efeitos sobre a democracia, os direitos de minorias e a proteção ambiental.
Economia e polarização
A The Economist destacou que o Brasil tem recursos naturais abundantes, agronegócio forte, matriz energética relativamente limpa e uma população com potencial de crescimento. Apesar disso, a revista avaliou que o país permanece estagnado. A expansão da dívida pública e a falta de reformas profundas, segundo o artigo, mantêm os juros elevados, restringem investimentos e prejudicam a expansão econômica.
A eleição de 4 de outubro foi descrita pela revista como uma escolha com poucas perspectivas de mudança. Lula e Flávio, os dois candidatos à frente nas pesquisas, foram apresentados como nomes que não parecem confiáveis para enfrentar a corrupção arraigada e o crescimento contínuo dos gastos públicos.
O jornal francês Libération ressaltou que Lula chega à reta final com indicadores favoráveis, como desemprego historicamente baixo, desaceleração da inflação, redução da pobreza e queda do desmatamento na Amazônia. A publicação ponderou, porém, que parte da população ainda enfrenta dificuldades cotidianas e não percebe concretamente esses avanços.
Na avaliação do Libération, a campanha foi marcada mais por polêmicas e escândalos do que por propostas. Lula e Flávio aparecem praticamente empatados, enquanto os demais candidatos ocupam posição secundária em uma disputa polarizada. A rejeição é apontada como fator central: Lula ainda enfrenta o desgaste das antigas acusações de corrupção, embora suas condenações tenham sido anuladas, além de resistência crescente entre eleitores evangélicos.
O teste institucional
O Libération também apresentou Trump como uma presença central, ainda que não declarada, na disputa. Lula tenta se colocar como barreira à influência dos Estados Unidos, enquanto o avanço da direita na América do Sul acrescenta uma dimensão internacional à eleição.
O espanhol El País afirmou que a votação definirá mais do que o próximo presidente e funcionará como teste para a democracia e para a capacidade das instituições de impedir um retrocesso autoritário. O jornal descreveu o confronto entre Lula e Flávio como uma disputa entre visões opostas sobre democracia e instituições.
A publicação relacionou o ataque de 8 de janeiro de 2023 às consequências do desprezo pelas regras democráticas e destacou a atuação das instituições brasileiras. A promessa de Flávio de conceder indulto ao pai mantém o episódio no centro da campanha, segundo o editorial.
Para o El País, a resistência da democracia brasileira terá repercussões fora do país, especialmente diante do avanço de movimentos conservadores alinhados a Trump na América Latina. Nesse cenário, o jornal considera o Brasil um contrapeso diplomático relevante na região.


