Luiz Inácio Lula da Silva viajará a Nova York no domingo (20) para participar da Assembleia Geral da ONU. Na terça-feira (22), o presidente brasileiro será o primeiro chefe de Estado a discursar no debate de 2026, posição que o país ocupa por uma tradição diplomática mantida ao longo das décadas.
Lula afirmou que pretende conversar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a viagem. "Não se meta nas eleições do Brasil. O Brasil só tem um dono, que é o povo brasileiro", disse o presidente.
Um espaço de projeção diplomática
A preferência pelo Brasil não está definida por uma regra escrita. Conforme o livro O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão, o costume teria surgido em 1949, durante a Guerra Fria. A escolha evitava conceder a Estados Unidos ou União Soviética a primazia na abertura dos pronunciamentos.
O secretário-geral da ONU passou a consultar a missão brasileira antes da definição da lista de oradores. O país aceita manter a posição, e o discurso inicial se transformou em uma oportunidade para apresentar avaliações amplas sobre a conjuntura internacional. Entre os temas tradicionalmente associados às falas brasileiras estão o combate à fome, o desenvolvimento e a reforma de instituições multilaterais.
Desde 1955, o Brasil abre de forma regular o Debate Geral, seguido pelos Estados Unidos, país anfitrião. Depois dos dois primeiros pronunciamentos, a sequência considera fatores como o nível da autoridade presente, o equilíbrio geográfico e a ordem de inscrição.
Origem e continuidade
Para Lucas Leite, professor da Faap, a permanência do Brasil nessa posição também se relaciona à participação do país na formação da Carta da ONU e nas discussões que levaram à criação da organização. O diplomata Oswaldo Aranha teve atuação na primeira Assembleia Geral e conduziu o processo que resultou na criação do Estado de Israel.
Leite também associa a continuidade do protocolo ao reconhecimento da diplomacia brasileira como capaz de mediar conflitos e construir consensos. O professor citou ainda a ausência do Brasil entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, que atribuiu principalmente à resistência da União Soviética e de países europeus.
A ordem teve exceções. Em 1983 e 1984, os Estados Unidos discursaram antes do Brasil. Em 2016, o Chade ocupou a segunda posição porque o presidente americano não havia chegado a tempo.
Repercussão para o país
A abertura oferece ao Brasil uma audiência diante de chefes de Estado, diplomatas e da imprensa internacional. Paulo Velasco afirmou que, como muitos participantes aguardam a fala americana, o público já está presente quando o representante brasileiro discursa. Com isso, o país pode apresentar prioridades nacionais e posições sobre assuntos globais em um momento de atenção elevada.
Ao longo do tempo, os pronunciamentos brasileiros alternaram entre uma orientação mais próxima dos Estados Unidos e uma defesa de maior autonomia e desenvolvimento dos países do Sul Global. Segundo Leite, governos de diferentes linhas políticas preservaram referências a desenvolvimento, combate à pobreza, meio ambiente e democracia.
O professor afirmou que os discursos também costumam abordar fome, pobreza, reformas de instituições globais e missões de paz. Para ele, o Brasil atua como uma ponte entre diferentes regiões e visões políticas. A posição de primeiro orador, portanto, combina valor simbólico e possibilidade concreta de apresentar a agenda brasileira no debate internacional.


