A Ucrânia negou nesta segunda-feira (28) que tivesse firmado um compromisso para manter em segredo a transferência de soldados norte-coreanos capturados na Rússia. Dmytro Lytvyn, assessor de comunicação do presidente Volodimir Zelenski, escreveu no Facebook que “não houve tal acordo”.
A declaração ocorreu depois de a Coreia do Sul convocar Andrii Vieshkin, encarregado de negócios da Embaixada da Ucrânia no país. O Ministério das Relações Exteriores sul-coreano informou que Park Yoon-joo, primeiro vice-ministro da pasta, transmitiu as “sérias preocupações” do governo sobre a divulgação do destino dos prisioneiros.
A origem da controvérsia foi um discurso de Zelenski na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na semana passada. Na ocasião, o presidente ucraniano afirmou que os soldados, capturados em território russo, haviam sido encaminhados à Coreia do Sul.
Na noite de domingo (27), Sung Ki-hong, secretário presidencial sênior sul-coreano, disse que Seul recebeu com “profundo pesar” a divulgação da transferência. Segundo ele, a própria Ucrânia havia pedido que o procedimento permanecesse sob sigilo, e o governo sul-coreano havia concordado por considerar o caso sensível. “Exigimos uma explicação oficial e um pedido de desculpas”, afirmou.
Os militares foram feridos e capturados na região russa de Kursk em janeiro de 2025. De acordo com estimativas dos serviços de inteligência ucranianos, cerca de 50 mil militares norte-coreanos foram enviados para lutar pela Rússia, acompanhados por mísseis balísticos e sistemas de artilharia pesada. A dupla é apresentada como a única formada por soldados norte-coreanos que, até onde se sabe, sobreviveram à captura. Em entrevistas à imprensa sul-coreana, ambos manifestaram interesse em permanecer na Coreia do Sul.
Em julho, os governos sul-coreano e ucraniano haviam concordado em tratar os prisioneiros de acordo com o direito internacional, os princípios humanitários e a vontade dos envolvidos. Uma autoridade ucraniana de alto escalão afirmou que a transferência foi debatida durante uma reunião de ministros das Relações Exteriores em junho, mas negou a existência de um acordo presidencial para impedir a divulgação.
A mesma autoridade considerou estranho esperar que o caso permanecesse oculto depois de os soldados terem falado sobre o assunto durante todo o verão. A embaixada da Ucrânia em Seul não respondeu a um pedido de comentário.
A crise ocorre enquanto os dois países compartilham interesse em conter a cooperação militar entre a Coreia do Norte e a Rússia. Kiev tentou obter armas sul-coreanas e mísseis interceptadores Patriot, mas Seul recusou, citando sua política de fornecer apenas ajuda humanitária a zonas de guerra ativas. No mês passado, a Coreia do Sul também fez uma viagem de teste pela Rota Marítima do Norte, no Ártico, cuja operação exige cooperação de Moscou.
O episódio também trouxe pressão política para o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, que busca uma abordagem mais conciliadora com Pyongyang. Jeong Jeom-sig, líder da bancada do oposicionista Partido do Poder Popular, acusou o presidente de temer desagradar Kim Jong Un e de “implorar [a Pyongyang] por uma paz de fachada”.

