NOVA YORK — A reunião entre Donald Trump e Delcy Rodríguez ocorreu a menos de 15 km do local onde Nicolás Maduro está detido, no Brooklyn. O encontro, realizado na noite de terça-feira (22/9), reforçou a mudança na relação entre os Estados Unidos e a Venezuela, que passaram da hostilidade à cooperação direta.
Rodríguez, presidente interina venezuelana, classificou a conversa como "uma reunião histórica" em uma publicação na rede social X. De acordo com ela, os dois governos discutiram o fortalecimento das relações e uma agenda de cooperação em energia, mineração, segurança e outros temas de interesse comum. A presidente também agradeceu o apoio americano após os terremotos de junho e ao processo de reinserção da Venezuela em organismos multilaterais.
A conversa aconteceu a portas fechadas, no hotel Lotte Palace, em Manhattan, durante uma recepção oferecida por Trump a líderes que participam da Assembleia Geral da ONU. Pelo governo americano, estiveram presentes o secretário de Estado, Marco Rubio; o secretário do Tesouro, Scott Bessent; a chefe de gabinete, Susie Wiles; e o assessor de Segurança Nacional, Stephen Miller, segundo uma fonte da Casa Branca.
Mudança na política americana
O encontro foi o primeiro conhecido entre os presidentes em exercício dos dois países em mais de uma década. Ele ocorre após uma sequência de medidas de aproximação. Em abril, os Estados Unidos retiraram Rodríguez da lista de sanções, o que permitiu sua viagem ao país. Na semana passada, a Venezuela também deixou a relação americana de países acusados de não cooperar suficientemente no combate ao narcotráfico.
Trump ainda passou a incentivar investimentos de empresas americanas na Venezuela. Em agosto, anunciou um acordo pelo qual os Estados Unidos terão controle majoritário de 17 campos que reúnem cerca de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo venezuelano.
No discurso feito na Assembleia Geral da ONU na terça-feira (22/9), Trump chamou Maduro de "ditador" e "criminoso", mas também afirmou que a operação que levou à captura do ex-presidente trouxe ganhos econômicos. Maduro foi detido em janeiro, em Caracas, por militares americanos enviados por Trump.
A prisão ocorreu enquanto Rodríguez, que era vice-presidente, assumia interinamente o comando da Venezuela com o aval dos Estados Unidos. Maduro está no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, em Nova York, onde responde a acusações relacionadas ao narcotráfico e a armas. Ele nega as acusações. O julgamento está previsto para junho de 2027, e uma condenação por conspiração para enviar cocaína aos Estados Unidos pode resultar em prisão perpétua.
Apoio sem eleições definidas
Em agosto, o governo Rodríguez iniciou conversas com parte da oposição, mas ainda não há plano claro para convocar eleições. Uma missão da ONU afirmou na semana passada que as estruturas associadas a crimes contra a humanidade não foram desmanteladas e que o governo interino não demonstrou intenção de reformá-las.
Para Benjamin Gedan, diretor do programa para a América Latina do centro de estudos Stimson, Trump parece pouco interessado em uma transição democrática e satisfeito com o governo atual. O analista Imdat Oner, da Universidade Internacional da Flórida, avaliou que Rodríguez depende da legitimidade conferida por Washington D.C. e que a dinâmica atual pode continuar pelos próximos dois anos, até o fim do governo Trump.
A aproximação contrasta com a posição adotada por Trump em 2019. Naquele ano, ele chamou a situação venezuelana de uma "tragédia de proporções históricas" e defendeu a restauração da democracia. Rodríguez, que representava a Venezuela na Assembleia Geral da ONU, acusou o governo americano de terrorismo de Estado por causa das sanções econômicas.
Rodríguez chegou a Nova York na segunda-feira (21/9), reuniu-se com António Guterres e com representantes de organismos internacionais de crédito. Ela deve discursar nesta quarta-feira (23/9) na Assembleia Geral da ONU. O governo venezuelano também recebeu, em Caracas, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, enquanto o Chile anunciou a retomada das relações com a Venezuela, suspensas desde 2024.


