A possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência passou a ser associada, na Europa, a dificuldades para a proteção da Amazônia e para a ratificação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul. O senador quase foi eleito no primeiro turno das eleições nacionais no domingo (4), em uma disputa com Luiz Inácio Lula da Silva que já era considerada apertada na semana passada.
O cenário projetado por representantes e analistas europeus inclui uma aproximação com os Estados Unidos de Donald Trump e um consequente afastamento do Brasil em relação à União Europeia. A avaliação também leva em conta o histórico do governo de Jair Bolsonaro: durante seus quatro anos no poder, as relações com países como a Alemanha foram reduzidas ao mínimo possível, segundo diplomatas.
Pressão sobre a proteção florestal
A Fundação Plant-for-the-Planet, de Berlim, considera que “um novo governo Bolsonaro acarretaria um risco maior de enfraquecer os órgãos de proteção florestal”. A entidade também aponta a possibilidade de veto a novas áreas protegidas ou territórios indígenas, de ampliação dos incentivos ao desmatamento ilegal por meio de anistias e de afastamento da cooperação internacional voltada à proteção das florestas.
Uma análise sobre os efeitos de diferentes políticas ambientais estimou que a gestão petista manteve 20 mil km² de floresta em comparação com o ritmo projetado caso Jair Bolsonaro tivesse permanecido no poder em 2022. Entre as preocupações está a continuidade do TFFF (Fundo de Florestas Para Sempre), lançado pelo governo Lula antes da COP30, em Belém, mas ainda sem apoio suficiente.
Flávio Bolsonaro é descrito como negacionista, assim como o pai. Especialistas avaliam que essa posição aumentaria a probabilidade de savanização da Amazônia, processo associado a efeitos na regulação do clima e a um possível ponto de não retorno do bioma.
Obstáculos para o acordo UE-Mercosul
A questão ambiental já está entre os pontos de tensão do acordo comercial. Para encaminhar o pacto apesar da oposição de produtores agrícolas da França, da Irlanda e da Polônia, a Comissão Europeia incluiu condicionantes relacionadas à proteção da floresta amazônica, ao veto a pesticidas e hormônios nas criações e a salvaguardas sociais.
O bloco também suspendeu a importação de carne brasileira por causa do descumprimento de um protocolo sobre o uso excessivo de antibióticos. A expectativa europeia é de que a resolução desse e de outros impasses seja mais difícil sob um eventual governo de Flávio Bolsonaro, caso o senador não adote uma postura mais pragmática.
O acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu em 2027. Nos quatro primeiros meses de vigência, as exportações agrícolas da Argentina, que não enfrentaram restrição sanitária, cresceram 21%. Uma eventual falta de ratificação não interessaria a Bruxelas, que busca alternativas comerciais à administração Trump.
Também existe preocupação com o Estado de direito. A condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe é apontada como um fator que permaneceria associado à eventual ascensão política de seu filho.


