A França ampliou para 5,5 milhões o número de pessoas que poderão receber um auxílio de € 100 para abastecer o carro usado no trabalho. A medida, estimada em € 450 milhões, foi anunciada pelo governo diante do preço recorde do diesel e da convocação de protestos para 29 de setembro.
O litro do combustível chegou a € 2,41 na média francesa nesta semana, cerca de R$ 14, o maior valor já registrado. Os critérios do benefício foram flexibilizados, incorporando 2,5 milhões de pessoas em relação a abril. Na primeira edição, apenas metade dos possíveis beneficiários solicitou o pagamento.
Sophie Binet, secretária-geral da CGT, criticou o alcance da iniciativa e manteve o chamado para as manifestações, que também terão como pautas salários, serviços públicos e custo de vida. “Cem euros enchem um tanque, e acabou”, afirmou. Sindicatos e parte da esquerda defendem o congelamento dos preços, rejeitado pelo governo.
O temor de uma nova onda de protestos
A alta dos combustíveis ocorre com a eleição presidencial a sete meses de distância e em meio à previsão de que o déficit público chegue a 5,4% do PIB. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu avalia o custo do auxílio enquanto o governo tenta evitar uma mobilização semelhante à dos coletes amarelos.
O movimento surgiu em novembro de 2018, após o anúncio de um aumento de imposto sobre combustíveis. Os manifestantes bloquearam rotatórias e estradas, além de realizar confrontos em Paris durante meses. A mobilização perdeu força depois que o presidente Emmanuel Macron desistiu do imposto e autorizou cerca de € 10 bilhões em medidas.
Hoje, 88% dos franceses consideram possível uma revolta parecida. Em 18 de setembro, Macron reuniu no Palácio do Eliseu líderes partidários e candidatos à Presidência para discutir a crise internacional e os preços dos combustíveis.
Pressão sobre energia e inflação
O barril do Brent, referência internacional, custava US$ 75 no início de julho e voltou a superar US$ 100 em 8 de setembro. Entre 11 e 20 de setembro, os franceses compraram 30% menos combustível do que nos dez primeiros dias do mês.
No início desta semana, o Brent caiu abaixo de US$100, equivalente a R$ 516,00, diante da possibilidade de o Irã reabrir o estreito de Ormuz. O alívio durou pouco. Após Estados Unidos e Irã endurecerem o tom na Assembleia Geral da ONU, o barril voltou a superar US$105, ou R$ 541,80, nesta quinta-feira, 24 de setembro.
Economistas apontam dois efeitos sobre a inflação. O primeiro aparece diretamente no índice geral, com o aumento na bomba. O segundo se espalha por fretes, alimentos e serviços ao longo dos meses, pressionando o núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos.
Na Europa, o impacto tende a ser maior porque o diesel tem peso elevado no consumo de petróleo. Na União Europeia, o combustível representa mais de 40% do consumo, o dobro da fatia americana. O Banco Central Europeu elevou os juros pela segunda vez no ano em 10 de setembro, levando a taxa de depósito a 2,5%.
Repercussões no continente
Na Alemanha, o diesel atingiu € 2,47 por litro em 17 de setembro, o equivalente a R$ 14,52. O preço subiu em um momento de pressão sobre o chanceler Friedrich Merz, que acumula derrotas em eleições estaduais e enfrenta pedidos de renúncia.
No Reino Unido, o diesel está a menos de 2 pence do recorde de 2022. O primeiro-ministro Andy Burnham é pressionado a ajudar famílias de baixa renda. O continente também se prepara para o frio com estoques europeus de gás próximos de 70% da capacidade, abaixo dos mais de 80% registrados nos últimos cinco anos nessa época.
O presidente americano, Donald Trump, responsabilizou o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, pelos ataques a refinarias russas que retiraram diesel do mercado. Em Nova York, na segunda-feira, 21 de setembro, Macron propôs uma moratória aos bombardeios contra a infraestrutura de energia dos dois lados. Zelenski sinalizou medidas equivalentes se a Rússia deixar de atacar o setor energético ucraniano.
O aumento do petróleo também elevou a tensão nos mercados de dívida. Os títulos de dez anos do G7 rendem, em média, 4%, nível que não era visto desde 2008. Os juros de dez anos dos Estados Unidos chegaram a 5,15%, maior patamar desde 2007, e os do Japão, a 3,08%, recorde desde 1996.
A França pagava 4,47% na terça-feira para se financiar por dez anos, mais de um ponto acima da Alemanha. A dívida francesa deve chegar a 121,7% do PIB em 2027, enquanto o auxílio para os combustíveis acrescenta pressão às contas públicas.


