PARIS — A visita do papa Leão 14 à França reúne, em quatro dias, encontros sobre os abusos cometidos pelo clero, a inteligência artificial e o futuro da Europa. O pontífice chegou ao país nesta sexta-feira (25), na primeira visita oficial de um papa em quase 20 anos.
A programação inclui reuniões com autoridades francesas, representantes da Organização das Nações Unidas e líderes europeus. Em Paris, Leão 14 será recebido pelo presidente Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu e falará com a equipe da Unesco, órgão da ONU voltado à cultura e à educação.
O papa também conduzirá uma cerimônia na Catedral de Notre-Dame, restaurada após o incêndio de 2019. Será a primeira visita de um pontífice ao templo desde o incêndio que quase destruiu a construção gótica. No sábado (26), ele celebrará uma missa na praça da Concórdia, para a qual cerca de 600 mil pessoas se inscreveram.
Encontro com vítimas em Lourdes
A passagem por Lourdes, no sudoeste da França, terá como um dos principais compromissos uma reunião com sete vítimas de abusos cometidos por integrantes do clero católico. O encontro está previsto para domingo (27), segundo pessoas envolvidas na organização. O Vaticano não divulgou detalhes adicionais.
Um funcionário do Vaticano afirmou que Leão 14 pediu que a conversa fosse organizada como um diálogo e reunisse vítimas de diferentes regiões e origens, incluindo pessoas que sofreram abusos na idade adulta.
O tema está ligado a um relatório de 2021, que estimou em cerca de 330 mil o número de crianças francesas vítimas de abusos praticados por membros do clero católico e líderes leigos ao longo de sete décadas. O documento afirmou que a Igreja demonstrou “indiferença profunda, total e até cruel” diante das vítimas.
Bispos franceses adotaram medidas de indenização e proteção desde a divulgação do relatório, mas vítimas continuam cobrando responsabilidade dos líderes da Igreja. Para o bispo francês aposentado Marc Stenger, que comandou a Diocese de Troyes de 1999 a 2020, os escândalos “feriram profundamente a Igreja e prejudicaram sua credibilidade”.
Lourdes também é relacionada ao caso envolvendo o padre e artista Marko Rupnik, acusado de abuso sexual por mais de 20 mulheres. Ele não se pronunciou publicamente sobre as acusações e é submetido a um julgamento canônico no Vaticano. O bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, determinou que os mosaicos de Rupnik no santuário fossem cobertos durante a visita papal.
Inteligência artificial e Europa
Na Unesco, Leão 14 deve abordar os riscos da inteligência artificial. Em maio, o papa publicou um manifesto em defesa de uma regulamentação internacional para o setor e deve reiterar o apelo por uma desaceleração em seu desenvolvimento.
O porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, disse que o pontífice falará sobre o sentido da existência e sobre os elementos que definem a condição humana. A Unesco enfrenta déficits orçamentários após a retirada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da agência em 2025.
A última etapa da viagem será em Metz, cidade próxima à fronteira com a Alemanha e ligada à trajetória de Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia. Leão 14 fará um discurso sobre as raízes da Europa para a paz e a unidade.
O cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo e ex-líder da comissão da Igreja para os bispos da União Europeia, afirmou que o papa deverá incentivar os líderes europeus a serem “incansáveis artífices e construtores da paz”. Macron convidou representantes dos 27 Estados-membros da UE para o evento, mas a presença de cada um ainda não está confirmada. O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, também pode participar.
A agenda termina na segunda-feira (28), com uma missa na Catedral de Santo Estêvão e uma cerimônia de despedida no aeroporto de Metz.

